domingo, 2 de novembro de 2014

Carlinha é uma jovem universitária que adora cabular as aulas para frequentar as festas e provar novas bebidas. Mas em 2014 algo mudou: Carlinha decidiu ser politizada. Certo dia, no banheiro do consultório do dermatologista, Carlinha se deparou com uma capa da Veja, apontando um suposto escândalo do PT. Para impressionar os amigos, Carlinha publicou no facebook a sua indignação ante a corrupção "dos políticos", como gosta de dizer, mas Carlinha é paulistana, está sofrendo com o racionamento de água e prefere usar o carro do pai porque "o metrô de São Paulo é uma porcaria". Não importa: Carlinha sempre esteva na moda, e a moda agora era o antipetismo. Para dar o primeiro passo, é melhor não arriscar: siga a manada e não será apontado como errado se outros estiverem errando - um grande número de pessoas erradas pode significar um acerto, se simplesmente ninguém for capaz de apontar o erro. Assim, Carlinha vestiu a camisa do Brasil e prometeu votar em Aecio porque queria mudança. Mudança do que? Não importa, Carlinha iria mudar alguma coisa com o seu pseudoativismo político e sua voz gritante nas redes sociais: "FORA PT! CORRUPTOS!" - hostilizava o partido, sem se dar conta de que o PSDB, de seu candidato, possui mais candidatos com ficha suja do que o partido que tanto critica, segundo a Justiça Eleitoral. Mas não é só. Carlinha gosta de reproduzir o pouco que escuta com seu pseudointelecto de papagaio de mídia, e andou dizendo que não votaria na Dilma porque o PT inventou uma guerra de classes conflitando o rico e o pobre, o branco e o negro. Mas as amigas de Carlinha adoram contar "piadas de preto" para ela, que se diverte. E Carlinha nunca entendeu o motivo pelo qual "aquele bando de pobre" resolveu fazer "rolezinho"no JK Iguatemi, lugar que é seu, porque o seu dinheiro pode comprar a vitrine das lojas e o caráter de algumas pessoas - dinheiro seu impresso no cartão de crédito do papai. Por falar em pai, Carlinha acha um absurdo que os "vagabundos do nordeste" recebam o bolsa família, mas paga mais do que eles ganham por mês só para entrar na balada, e recebe o bolsa papai para ficar em casa estudando para um concurso. Para Carlinha não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar, e com dezoito anos ganhou o seu primeiro carro, tem a sua faculdade paga e ainda não entendeu que isso não seria um defeito, se ela simplesmente deixasse o pobre dependente do bolsa família em paz. Carlinha já foi uma vilã, hoje é vítima da sociedade - faz parte da ala oprimida de uma revolução cruel de valores. Carlinha faltou nas aulas de filosofia porque eram muito chatas, mas não perde um programa de humor, principalmente onde aprende que negros precisam aceitar serem chamados de macacos e que qualquer sentimento de ofensa ante as piadas de seu ídolo soam como censura. Por falar em censura, Carlinha esteve ontem na Av. Paulista acusando o PT de promover uma verdadeira ditadura, e foi fotografada por diversos jornais, protestando em plena avenida, pelo direito de liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, Carlinha aprova os amigos dizerem que é hora de um golpe militar. Não estou dizendo que Carlinha é má - ela sabe que não, quando diz que é uma "cidadã do bem, que paga impostos", mesmo que busque uma sonegação com tamanho alívio ao tempo em que vibra quando ouve alguém dizer que bandido bom é bandido morto. Carlinha diz que as leis são fracas, e nunca se deu o trabalho de saber que o Brasil possui uma das mais severas leis em matéria de corrupção se comparado com a Europa inteira, ao tempo em que o contraste social revela que a lei não oprime esta conduta. Ainda assim, Carlinha se orgulha ao dirigir embriagada dizendo que não é obrigada a fornecer provas contra si. Mas coitada de Carlinha, como ia dizendo, é uma boa pessoa, e sofre muito. Carlinha desabafa que é difícil ser branca hoje em dia, está sendo oprimida também por ser heterossexual e por fazer parte da classe média alta. O que Carlinha nunca vai perceber é que não se deve confundir a reação do oprimido com a fúria do opressor. Não importa: Carlinha acha que os homossexuais se vitimizam ao falarem de homofobia, mas não sabe que o Brasil é o líder mundial no ranking de homicídios por essa razão, e ironiza o feminismo, mesmo sendo mulher e sabendo que o Brasil é o terceiro colocado no mundo no ranking de assédio sexual. Está chegando o feriado de consciência negra, e Carlinha já se prepara para publicar no facebook que almeja menos consciência negra e mais consciência humana. Carlinha se sente oprimida por ser branca, pelo passado de escravidão de sua etnia e por ser constantemente xingada de macaco em estádios de futebol - e também por ser obrigada a assistir a um programa chamado O Sexo e as Brancas, na sua emissora predileta. Carlinha também acha que as cotas raciais são uma covardia, e que negros roubam o seu lugar na cadeira universitária - reclama fazendo a maquiagem enquanto o professor está dando aula. Não importa se Carlinha está certa, importa que Carlinha reproduz o que a maioria diz e o que o sistema opressor precisa ouvir. Carlinha, a heterossexual e branca oprimida, da classe sofredora, prega que a esquerda propaga o ódio enquanto diz que os nordestinos não deveriam ter direito de votar, pedindo separatismo. Carlinha diz isso porque parece ser mais politicamente correto ser de direita - porque é destra, tanto faz. Carlinha não sabe o que é direita e esquerda, nem para dar seta no carro. Mesmo assim, xinga os colegas de "esquerdinha", mas coitada de Carlinha se alguém pedir que cite autores e explique melhor o seu alinhamento político. Tudo bem, Carlinha. A gente te entende, e luta por você também,seja por consciência, ideologia, amor incondicional ou por mera questão de caráter. E você pode odiar ler isto, e me odiar também, mas todos nós fatalmente nascemos com um pouco de Carlinha. Nada que um livro, um cérebro pra funcionar e boa vontade não curem. Ótimo domingo e um beijo para todas as Carlinhas e Carlinhos, com muito amor e compaixão, afinal, mais do que merecer, eles precisam.