domingo, 17 de agosto de 2014

Arrastei-me pelos mais de oito quarteirões para achar uma padaria de mesquinharias aberta bem na esquina. Dentro dela três paulistanos típicos amantes de balcão exalando cerveja - desses que mais exalam do que bebem, inundando aquela barba rala e supostamente viril em um rosto que parei de descrever, porque todos observaram a minha cara de nojo na mesa diante do bolo que pedi, e o bolo não tinha nada a ver com isso. Não é bem o nojo da cerveja, mas prefiro whisky. O porre é mais profundo, e cerveja faz feliz para depois te causar náuseas, e pra isso eu tive diversos amores. Mas não é só,  fui obrigada a ouvir toda a escória latente dos carros passeando em vão pelas ruas da cidade. São Paulo tem dessas coisas: é uma música inquieta, sem ritmo e constante, que por vezes estressa, noutras expande os canais auditivos e convida a perceber como tudo isso funciona - o choro da criança que veio à vida no parto atrasado em pleno trânsito, o carro da funerária de quem se despede do caos e o Samu atropelando o tempo e desejando ser uma nave espacial para decidir o meio termo desse indivíduo que não sabe se vai ou se fica. Ei, amigo: vá.  Aqui você não perde nada. Só o gostinho do pão francês tão obrigatoriamente matinal vai te deixar saudades. Era parada cardíaca, mas eu tenho tido outras: uma parada respiratória em cada trago de um charuto barato, uma parada obrigatória em cada olhar terno de um cachorro que passeia na rua e uma parada qualquer nesse intento de mesquinharias cobertas de creme de avelã para disfarçar sua podridão no corpo, tal como as luzes do caótico cenário urbano da cidade ofuscando a lua. E eu já farta de cólica e cólera - a essa altura, qual a exata diferença do que dói? - mas tão cansada que cansei, de verdade. E essa moça,  a garçonete,  toda vez que passa sorri com covinhas no rosto esbranquiçado denunciando as bochechas vermelhas, num tom de convite. Sorri e me observa com um estranho deleite, atenta e de prontidão, procurando ler o jornal que está sobre a mesa e comentar como é engraçado alguém comer um quindim com talheres, retirando o cardápio como um ninja. Sim, os garçons são ninjas na arte de tirar o cardápio, você não pensou na bebida e plin! Sumiu de novo. Cardápios são menos fieis à mesa do que amores nos tempos modernos. Já eu, eu sigo aqui, mal encarada, desolada e começando a duvidar desse olhar da garçonete, cheio de simpatia.  É que não sou lá a figura mais simpática, e confesso: sinto-me encabulada e desconcertada como uma torre que despenca inteira quando me olham dentro dos olhos (e por favor, se você gostar muito de mim, não me olhe dentro dos olhos), mas ela olhava com tanta sutileza que até pensei que me enxergasse a alma, não os pensamentos.
- Posso retirar?
- NÃO! - gritei, em tom de insulto.
Referiu-se ao café, e eu pensei que já devia ir embora antes que nessas de arrancar com grosseria o cardápio da mesa, parte da mimha alma que se esvai na escrita vá junto pelas mãos cercadas de migalhas de pão da garçonete - é que migalhas me atraem, me intrigam, e eu ando meio assim, despedaçada.