quarta-feira, 20 de agosto de 2014

19 graus no centro da cidade e eu a caminho do médico. Particularidade minha, acho engraçada a ideia de sentar na cadeira do paciente fazendo bem assim: "toma", e com a leveza e contrapeso da criança que espalha o lego no tapete da sala, jogo as dores do peito e da alma  - "tem quem cuide" - pensar assim traz um ar de segurança. Outra coisa engraçada: o coração é meu, e ele cuida. Parece aquele roteiro de melodrama de cineminha e casalzinho melado, não parece? E, vem cá, quantos desamores detecta um eletrocardiograma? Francamente, doutor, eu tenho alma. O resto é roupa; roupagem velha, quase arcaica, mutável e desimportante. 
Atravessando a rua encontro um cego que, como eu, destrambelhado. A diferença é que ele na rua e eu na vida. Apressei o passo quando notei a sua bengala riscando o concreto na rua e sua cara já quase na banca de revistas. "Senhor! Senhor!" - ele não me escutava. Toquei com sutileza o seu ombro direito e ofereci ajuda.
- Obrigado, querida. Não vou atrapalhar seu trabalho?
- Jamais, aliás, estava chegando de uma consulta médica. 
- E como vai?
- Bem, obrigada. Seu nome é?
- Reginaldo. E o seu?
- Prazer, Carolina.
Guiei o rapaz até o local desejado. Após, sento no mesmo restaurante japonês para por em prosa o meu desassossego. Escrevo porque falo de mim, e isso já me é demasiadamente egoísta. Poderia até ser amor próprio, mas é egoísmo mesmo. Ando tão farta da vida que pareço não caber em mim; teimo em ser um pedacinho do quebra-cabeça com a ponta mutilada, que faz questão de não montar em nada. E também por isso não escrevo mais poesias: faço questão de não rimar mais nada. De não pensar em nada. De não ser nada com nada. Bem assim: nada. Mas nada mesmo, como o cego nem aí com nada que ia dar de cara com a banca da esquina. Que diferença faz bater a cara na banca ou bater na vida? Se está nos olhos de quem vê, na alma de quem sente, amigos: Adeus! - declarei cegueira. E, por me faltarem melhores palavras, cito Alberto Caeiro (porque Fernando pessoa era poeta e, por ser poeta, sabe o que é "querer-se exilar de mim", e não encontrando meios para isso, criou outro Fernando que se chama Alberto):

"(...)
O que penso eu do mundo? 
Sei lá o que penso do mundo! 
Se eu adoecesse pensaria nisso. 

Que ideia tenho eu das cousas? 
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? 
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma 
E sobre a criação do Mundo? 

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
E não pensar. É correr as cortinas 
Da minha janela (mas ela não tem cortinas). 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! 
O único mistério é haver quem pense no mistério. 
Quem está ao sol e fecha os olhos, 
Começa a não saber o que é o sol 
E a pensar muitas cousas cheias de calor. 
Mas abre os olhos e vê o sol, 
E já não pode pensar em nada, 
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos 
De todos os filósofos e de todos os poetas. 
A luz do sol não sabe o que faz 
E por isso não erra e é comum e boa. 
(...)"

Já eu, eu não tenho Albertos, eu tenho Fernando. E se eu tentar criar um outro ser, ele será contaminado pela minha veia poética - que nos momentos de dor ou nos momentos de amor, sabe ser, simultaneamente, a desgraça da vida ( e sabe torná-los sinônimo num passe de mágica). É, amigos. A cegueira é mais que um dom: uma virtude. E eu vivo dando a cara com as bancas de revista sabendo que são bancas de revistas. Antes não soubesse o que ou quem são, e entraria pelas frestas de castelos, bateria com a cara no portão de entrada do paraíso no céu e ninguém nunca me provaria o contrário, porque eu não precisaria ver ou saber, mas só sentir. É bem verdade, amigos. Eu vivo meio cega também.