quarta-feira, 16 de julho de 2014

Fernando Juiz da Silva Neto – um homem que não vê machismo, branco que não vê racismo e rico que não vê luta de classes

Fernando é um jovem simpático, mas insiste em dizer que não existe racismo. Para Fernando, o racismo é um pronto discurso dos negros para comover a sociedade com ideais de segregação que só existem na cabeça dos negros. Além disso, para cada negro que se orgulha da etnia em memória dos tempos de escravidão e de um recente ocorrido xingamento de “macaco” nos estádios de futebol, Fernando tem o discurso pronto: sou 100% branco. E ninguém discorda: Fernando defende que deve haver mais consciência humana do que consciência negra. Fernando não acredita em racismo, e é branco.
Fernando é um bon vivant, e detesta que um pobre fedido atrapalhe o seu almoço no centro da capital pedindo algumas moedas. Fernando entende que é herói porque trabalhou para pagar aquele almoço, o sapato de couro e o terno de grife. O que Fernando não entende é que tem o melhor emprego porque seu pai é primo do melhor amigo do dono daquela multinacional onde trabalhou, quem pagou o intercâmbio para os EUA onde voltou com o inglês fluente para disputar uma vaga no mercado, prestes a obter o seu diploma no curso que seu pai pagou em uma das melhores universidades do país. E mais: Fernando não entende que ninguém critica isso, a menos quando vê Fernando se empolgar contra o bolsa-família e demais comodismos de vagabundo – como gosta de dizer – porque deve-se não dar o peixe, mas ensinar a pescar, embora Fernando sempre tivesse pescado com a vara do pai. Não há nada antielitista nem conspirações exageradamente marxistas que se oponham ao arregaçar das mangas de Fernando, mas é razoável entender que a meritocracia não irá empregar o filho do Seu Antônio, que trabalha coletando latinhas, na mesma multinacional. Seu Antônio é dono de uma peixaria na praia, onde Fernando compra o peixe para o almoço de domingo. Fernando não sabe pescar.
Fernando é macho com “m” maiúsculo e já foi muito preconceituoso dizendo que lugar de mulher é na cozinha; hoje abre a porta do carro e não deixa a namorada pagar a conta. Fernando se diverte com os amigos no facebook compartilhando as indignações das feminazi – como gosta de dizer – e entende que a marcha das vadias é um verdadeiro absurdo em que vadias se reúnem para exibirem os peitos. Fernando acha o gesto vulgar, mas se diverte nas bancas de revista que exibem a capa da Playboy. Fernando acredita ser desnecessário um protesto para que mulheres tenham posse do próprio corpo, ironiza o feminismo e prega que não existe machismo nem guerra entre sexos. Mas os programas de humor que Fernando assiste não cansam de exibir mulheres de biquini fio dental com zoom no traseiro em brincadeiras que propositadamente enfatizam a pornografia baixa e barata, ao tempo em que tais mulheres são vistas como um objeto de satisfação da libido desenfreada do macho moderno. Para Fernando não há machismo nem divisão de classes, mas coleciona alguns bons pornôs intitulados vadia-gulosa-bunduda-safada-cachorra-vaca-vagabunda-piranha-engole-tudo. Fernando não vê propósitos nos ideais feministas, e na semana passada foi a uma casa de swing, pagando R$ 400,00 porque era solteiro, mas mulher solteira entra VIP e casal paga metade. Fernando gosta de ofender as pessoas, e namorou uma feminista chata, que chamou de “mal comida”. Mas foi sua ex namorada.
Com muito esforço, Fernando ingressou na magistratura, e hoje atende por Fernando Juiz da Silva Neto. É que nas rodas de churrasco e na festa da sobrinha mais nova, sempre haverá alguém para dizer do Seu Antônio, da Lúcia, da Carmen, do Julio e do Fernando, que é juiz. Toda vez que perguntam quantos anos tem Lúcia, Carmen e Julio, todos dizem que Lúcia tem 38 anos, Carmen tem 23 e Julio 29, já Fernando VÍRGULA o juiz, tem 42. Fernando, por baixo da toga, vê as coisas da seguinte forma: negros são dramáticos, feministas são chatas e pobres são vagabundos. Tudo isso disfarçado em um discurso aplaudido por uma transmissão venérea da mais alta periculosidade: o senso comum; porque quem cala, consente. Está cheio de Fernandinhos por toda a parte, saindo das fraldas, dos fóruns, da política, das escolas. Fernandinhos são bons garotos e ninguém nunca perceberá que o pior vilão dos males da humanidade foi o bem que nada fez. E Fernando Juiz da Silva Neto faz a lei: porque é branco, não existe racismo; porque é homem, não existe machismo e porque é rico, não existe pobreza. O resto é conspiração de esquerda. Mas o mundo está escrito no umbigo redondo que a mãe de Fernando, o juiz, deixou de colocar para dentro na hora certa. Hoje saltou para fora, e ninguém segura esse bebê, agora juiz VÍRGULA da Silva Neto.