quarta-feira, 16 de abril de 2014

VII - Tem certeza de que você dormirá sozinha esta noite?

            (Jason Mraz - Sleeping to Dream)

Não, não é um pecado estarmos sós agora. Haverá um carro mais veloz quando você quiser cortar o caminho, uma chuva invadindo a janela do quarto, um sapato apertado em um dia estressante. Mas se você observar melhor, o carro mais veloz não aprecia a paisagem como quem estava mais lento, apenas enxerga; a chuva te fez trocar a roupa de cama e seus pés ficam incrivelmente lindos ainda que visivelmente machucados pelos sapatos, com a pele avermelhada. Há uma beleza na vida que passei a encontrar quando te vejo distante, e por vezes me flagro perguntando o que querem seus olhos quando parecem me atravessar ou me cortar ao meio, como se eu tivesse dito qualquer coisa idiota que te fizesse perder a cabeça ou arrancar os cabelos. Por falar em cabelos, continuo sem reparar naquele seu corte, se é que você tem cortado, as coisas mudaram tanto que passei muitos meses acreditando que eles eram pretos, sabia? Mas não são. Uma vez o sol te abraçou de maneira tão terna e - não que eu estivesse te olhando -, caídos sobre as costas seus cabelos pareciam tão claros. Como uma obra paralisada, eu deixei uma casa demolida e algumas malas de roupa para você lavar, ou guardar e se lembrar de nunca me esquecer. Eu sei, eu sinto. Você realmente acha que eu joguei as suas fora?

Não, não é mesmo um pecado estarmos sós agora. Eu, que conheço mais o cheiro natural da sua pele do que os diferentes tons de suas unhas pintadas, jurei não cometer os mesmos erros. E as juras te cansaram a esse ponto que você chegou. Espera. Não precisa ultrapassar aquele carro, nem disfarçar o seu riso tão choroso porque eu estou na sua frente. Quem disse que eu tenho os pés no chão quando te encontro? Quem disse que eu estou aqui de verdade? Você não sabe para onde a minha alma vai quando eu te olho, por exemplo, agora.

Pois é, nada disso é um pecado. Eu não peco. E você? É que, às vezes, a alma chora e o tempo bate como o vento na janela do seu quarto anunciando a chuva, e o sol vai tarde. Quando isso ocorre, eu prometo te deixar para trás, e corro na direção contrária. O problema é que sempre pensamos as mesmas coisas, e é capaz que você corra de mim e eu corra de você sem perceber que fomos para a mesma direção. E isso sim seria um pecado: tentarmos mudar os calçados, se é impossível mudar a estrada. Eu não tenho vocação pra anjo, nem olhar tão generoso, mas eu juro que um dia meus olhos brilharam por poder te acordar com um beijo. Mesmo assim, continuo cuidando do jardim na porta da sua casa, e quando passar a colher flores, saberá quem plantou as sementes, teimosa. Você pode me detestar agora, mas há uma sombra que te segue o dia inteiro sem cor nem nome. Há um beijo respeitoso em sua testa quando desperta, e uma sensação de que o travesseiro é capaz de te beijar a cabeça e afagar os cabelos como eu sempre fiz enquanto você adormecia sobre mim. E depois de tudo isso, é bem capaz que eu diga exatamente qual a cor dos seus cabelos; que tudo fique mais claro agora como fica o dia se você sorrir. (...) Tem certeza de que dormirá sozinha esta noite?