quinta-feira, 10 de abril de 2014

Parte II

A dança de seus olhos parecia resplandecer na minha eterna euforia; definitivamente não havia noite ou dia, era Catharina o meu luzir, o meu luar constante. Amanhece como o sabor de fruta fresca no café da manhã e repousa com feitio de criança, serena e angelical - ah, se pudesse envolvê-la! (...) Tinha o hábito de mexer com os olhos de maneira expressiva - bastava um olhar para que pudesse sê-la, um olhar apenas e com ele Catharina clonaria as estrelas, congelaria vulcões e faria surgir um novo mundo. Seu olhar vem de planetas, e conhece Saturno; Catharina era traduzida no encanto das flores do campo e no meu contemplar das tardes frias de São Paulo, da janela do quarto trancada, refletindo no vidro os meus olhos que emanavam a luz constante dos olhos dela. Sempre ela. Esses olhos devem ser o socorrer da minha alma, o pesar da minha brusca expressão desatina, mas também o meu canto de paz. Catharina sabia ser sexual sem sê-lo tanto, ora ousava entre o cheiro de fêmea no cio, ora entre o feitio da sua dança de olhares que balançam o meu corpo, provocando até náusea, como o velho marinheiro que perde a diretriz sofrendo a vertigem de tentar acompanhar o balanço das águas. Pronto, Catharina era o balanço do mar, e sua maré se alternava entre a minha excitação, a mais extrema euforia e a dose de morfina imediata, que é capaz de me dopar e me fazer dormir profundamente, por crer que estou sonhando pela forma como penso nela. As mãos - como ouso falar de Catharina sem lembrar do cheiro de rosas? -, as mãos me cobrem de melancolia; de tristeza por não tê-las onde e como quero, quando quero, como agora, por exemplo. Mas também eram capazes de esculpir especiarias e cavar um poço fundo no deserto. Com toda certeza, tempero não sei, mas há um pouco de pimenta no fundo dos olhos de Catharina, cuja cor dispenso descrever, posto que prescinde, nem mais sei se chamo de olhos ou de bailarinos bêbados ensaiando o meu amor por ela, porque dançam, e só dançam, enquanto Catharina ensaia e me aquece todas as partes do corpo com seu olhar mutilador de órgãos.

Deitei-me na cama fazendo o livro de travesseiro, que tratava de crimes sexuais, com a capa preta escrita em vermelho - sangue vivo. E também a sangue frio pudera matar-me, doce Catharina, com esses olhos de perigo eterno. Mas, pensando sobre ela, apoiei-me noutro braço e deitando de lado na cama, fingindo não ser a parede, mas seus olhos, adentrei também em sua alma. Aproximei-me assim de seus lábios, que tem a parte superior sutilmente contrária ao declive, de modo que meu lábio inferior encaixou-se entre os dela, e mordiscou-me como a entrada do prato; então atraquei-lhe sem dó a cintura, deslizei para o traseiro e senti que sua mão retornava para as costas, onde pude apertá-la e confrontá-la em meu peito, e calando-me em seu desejo senti o que defino pelo intenso renascer da alma. Catharina me fazia ter anos a menos, e viver anos a mais, gozar da plenitude de todos os sentidos e abracei-a com toda ternura como quem cultiva especiarias, como eram, para mim, cada parte de seu corpo, e flagrei-me beijando a ponta de seus dedos dos pés até a cabeça, quando, como rente à lareira que nem tinha no quarto, éramos lábios entre lábios e línguas passeando uma na outra, e a estrada do meu destino estava marcada ali, pelas curvas do corpo de Catharina - especialmente na cintura, onde pude merecê-la, possui-la e trazê-la para perto para que fosse minha, e era. Já despida, a meia luz do quarto desafiava o dourado da pele, e brinquei de não vê-la para sentir o seu cheiro e seu gosto, apaixonando-me como quando prometo ser o último gole de vinho da taça ainda cheia: sem freios, nem limites, nem controle. Catharina cegou-me às espreitas de um amor selvagem e entorpecido, despiu-me as vestes da alma. E por isso no viés do mais ardente apaixonado, amei-a de um jeito que sei que não será tocada noutros braços, não na mesma fúria e intensidade, marcando-a para sempre. Deixei que escorresse por entre as pernas o que sentia de prazer, e que a voz dolorosa me entrasse pelo ouvido como um soneto de seus gemidos nada acanhados, surpreendentes para quem ousa conhecer mais que a dança dos seus olhos. Foi o barulho da chuva que me acordou, nesse instante. Levantei-me da cama num gesto brusco e pensei se Catharina gostava de rosas. Horas depois nos encontramos, e de lá, sorriu para mim, como quem mordisca a minha pele por inteira, me fazendo em pedaços e engolindo, sugando com o fervor dos seus lábios que pareciam abocanhar-me por instinto; de cá, o franzir da minha testa a despejar o meu olhar animalesco que rasgava as suas roupas e tomava-lhe nos braços à força, se não quisesse - será que queria? (...) Dali a dança dos seus olhos, de cá o choro dos meus - cisne negro, malcriado, puto! - doce feitio de poeta.