domingo, 13 de abril de 2014

Carta para ela (do fundo da gaveta)

Era uma tarde de sol em plena sexta-feira - combinação de um mero agrado - eu não tinha que me lembrar de nada. Sob o traje da camisa azul foi que senti o derreter da pele no suor esmaecendo, remetendo-me a um banho frio quando, desabotoando-a e tendo já a toalha verde musgo sobre um dos ombros, encontrei a sua calcinha usada bem no fundo da gaveta. Não irei descrevê-la; posso lhe causar profundos constrangimentos, querida, mas tão logo seu tecido se fez parte de meus dedos, enfeitou a minha mão como um prêmio de caça. Entre a náusea e a vertigem da minha constante embriaguez de sentidos, perdi-me nesse doce cheiro de fêmea - como que num trago, numa torpeza de substâncias tóxicas que denuncia tudo e quanto o que fizemos. Tínhamos sexo por uma noite inteira; de café da tarde e pela manhã. Recordo-me de termos vivido da pele e da alma como se construíssemos amor numa cabana matando a sede no gosto, na libido; a fome no corpo, na pele, na carne, nos sentidos, na saliva. Era impossível dizer que o seu cheiro não inundava os meus sonhos pela madrugada - nem meu quarto e a gaveta como tragédia natural, feito enchente a transbordar entre todas as roupas e outras mulheres que bateram na porta. Não, eu não sou capaz de te trair, mas eu nunca fodi uma bunda como acabei com a sua, eu nunca vi nenhuma dessas putas a se desleixar de prazer e gritar no cio de ter seu cu arrombado sem dizer que isso era sacrifício. Não, você realmente gostava, e me lembrava uma profissional na arte de enfileirar os cabelos a deixar que caíssem por um dos ombros, empinando a bunda que foi minha pela primeira vez, só minha - você dizia, como se me fosse um troféu tê-la conquistado -, e brincava entre suas nádegas com o torpor mais doentio metendo-lhe a língua ou o corpo, até descobrir a sua pele tatuada enquanto deixava a marca dos meus dedos realçando o seu sangue em todo o meu fervor; e devia ter mesmo tirado sangue e não esboçado de dentro para fora, devia ter te fodido com mais força até as suas trompas para que você sentisse esse domínio animalesco, mas não resistia aos cuidados de sua voz dolorosa pedindo que não te machucasse - que merda! Eu nunca neguei a chance de ver uma vadia urrar de dor, esvair em sangue e implorar que parasse, pelo simples desejo de tê-la ali, fodida, esmaecida; satisfeita. Mesmo assim, tinha a pele desbotada marcada pelo meu tesão, te via ainda linda, violentada, contando hematomas pelo corpo. E te domava pelos cabelos instigando os seus gemidos como brusco ensaio de  pornô, mas muito mais instintivos e até meigos, mais singelos. (Seu nome) desculpe, desculpe, mas é inevitável olhar para o seu rostinho na rua sem me lembrar da sua cara de vítima, da sua boca molhada - que ainda tem meu gosto - com aquele olhar de satisfeita; um olhar delicado e um jeito inesquecível de jogar os cabelos para o lado e fazer trabalhar tão bem uma boca tão pequena; do segurar em seus cabelos e coordenar a sua cabeça como se preciso fosse para que seus lábios engolissem o que me provocara, da maestria de te ver gemer, de olhos fechados e boca cheia, parecia disputar esse tesão comigo - nenhuma vadia se deliciava tanto com os lábios gozados e ainda faminta, nem talvez descobrisse que era possível gemer e chupar ao mesmo tempo. Recordei-me depois de seu rosto estapeado e da sua pele amanhecendo roxa quando caía frouxa e leve a adormecer em meu peito, e bastava aninhar-se ali, desprotegida, para que dormisse tão profundo, e terminava a noite contornando o seu rosto com os dedos, desembaraçando os seus longos fios de cabelo até as costas enquanto as curvas de seu corpo me abriam o apetite outra vez. Éramos álcool e fósfóro, a força e a vontade e até os seus sapatos no canto do quarto acendiam-me a libido, para que tão logo me tomasse por qualquer cachaça em uma madrugada e bastava para te ver deitada, uma perna cruzada sobre a outra e já estava a tirar os seus sapatos - e sou capaz de recordar exatamente do cheiro que exalavam após enfeitarem em adorno de requinte os seus pés a noite inteira - beijando-lhe os dedos em serventia que teria desejado por uma noite inteira, acendendo-me o desejo mais bruto e estaríamos de novo, no quarto, provando dessa tara louca - porque não seriam taras se não fossem loucas; se não fossem nossas. E te deixava domada feito fêmea adestrada, que já sabia o caminho, deitando com a bunda empinada num eterno convite. Quando não estapeava a sua cara, gostava de te ver ali, de quatro, pronta, submissa, beijando a sua tatuagem e o seu cu como se fosse a boca, e é melhor que eu nunca mais me lembre do seu cheiro me entorpecendo enquanto eu te fodia até cansarmos; até cair sobre suas costas, beijar o seu pescoço e sei lá, não posso me lembrar de nada. Aquele cheiro inundou os meus sentidos, meus pensamentos, a gaveta e o fundo do armário. Nunca fui tão voraz com uma puta sequer; a sua bunda não, bastava-me o rebolar na calça justíssima (há uma preta e uma marrom que são as minhas prediletas) para que eu lembrasse do cheiro dela, tragasse feito a fumaça do cigarro e te fodesse em pensamento; te fazendo gozar várias vezes querendo gritar, até o estremecer das pernas já bambas e o afobar da cara molhada, ainda gozada, vermelha e estapeada no travesseiro, pedindo para parar como pede que eu saia da sua vida - e confesse, você nunca quis nem um nem outro; mesmo com toda a minha selvageria de dentro e fora do quarto - porque eu sei e você sabe: ninguém fode desse jeito, como eu a sua bunda, você a minha vida e todo o resto que guardamos em segredo no quarto; na gaveta, no fundo do armário, caso ninguém acredite - nem eu, nem você. Nem nós. Nem nada.