quinta-feira, 13 de março de 2014

Pedrão fala sobre a "Ditadura gay"

Ontem, na casa de Pedrinho, enquanto assistiam o clássico do Paulistão (ou seria Brasileirão? Pedrinho, você que adora futebol, me ajude!), e a bola da vez está com Pedrão, seu pai, que assim preceitua entre goles de cerveja e respingos na sua barba grisalha exalando virilidade:

- Pedrinho, já viu isso? Não basta a outra novela mostrar aqueles dois viados, agora vão mostrar sapatão.

- Eu vi, pai. Mas a Giovana Antonelli é gostosa, né?

- Sim, é verdade. Mas que tem gay no mundo a gente sabe, não precisa ficar mostrando. Essa Globo é do diabo!

- Mas não mostraram nada, pai. Eu assisti a novela inteira e os dois atores só deram um selinho no último capítulo.

- Ah, só um selinho? Já tá bom demais, né, Pedrinho, você queria que mostrasse o que? Estou te estranhando...

- Não, que isso? Eu sou macho. Não tenho nada contra gay, pai. Eu até tenho amigo gay.

- Eu também não tenho nada contra gay, mas não precisam ficar mostrando. Como as crianças vão lidar com isso?

- Mostrando o que, pai?

- Cenas de beijo na televisão naquele horário.

- Mas pai, os programas de humor da TV brasileira são feitos por meio de mulheres colocadas como gostosas e desprovidas de intelecto, quase nuas. Os desfiles de Carnaval demonstram mulheres praticamente nuas. Andando na rua, as capas da Playboy estão à mostra nas bancas...

- Que isso, Pedrinho? Você não gosta de mulher?

- Claro que gosto, pai.  Só não tenho problema com isso.

- Então você acha normal duas mulheres se beijando na TV?

- Acho, ainda mais se as duas forem gostosas - responde Pedrinho, com um riso espontâneo atravessando as palavras.

- É, isso é verdade. Eu recebo uns filmes pornô por e-mail do seu tio, Zé Pedro, de bissexuais. Precisa ver... - diz Pedrão, com um sorriso malicioso.

- Bissexuais? Homens também?

- Tá louco, menino? Viado não, homem com homem é nojento!

- Mas então o senhor é contra gay e a favor de lésbica?

- Sou a favor da família, Pedrinho, da família.

- Mas pai, o João Pedro, meu irmão, é filho de outro casamento. O senhor é tão a favor da família que tem até uma família lá no nordeste que a mamãe nem desconfia...

- Pedrinho, sou homem. Além do mais, família é pai e mãe. João e Maria. Não João e João.

- Mas pai, o filho que o senhor não reconhece fora do casamento não tem família? Ele não tem pai.

- ...uh! Na trave - diz Pedrão alisando os cabelos em tom de fúria, acompanhando o futebol na TV.

- Pai, não acho que seja bem assim. O Supremo reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Dois homens podem se casar sim: Pedrinho e Pedrinho, por exemplo.

- NÃO!
- Está bem. Estou brincando. O senhor tem toda razão. Tem um projeto maluco querendo ensinar as crianças na escola a identidade de gênero.

- Identidade do que? Que isso?

- É, sei lá. Acho que tem a ver com essa coisa de homem querer ser mulher, mulher se identificar mais com gênero masculino...

- Putaria, você quer dizer putaria. Pra mim, homem é homem e mulher é mulher. Fora disso, é doença.

- Pai, ouvi dizer que o sufixo "ismo"do termo homossexualidade foi abolido porque não se trata de uma patologia. A psicologia disse que...

- Pedrinho, você é macho, foi criado brincando de carrinho, jogando futebol e vendo revista de mulheres. Você seria macho se eu mandasse você escolher entre uma bermuda e um vestido, uma boneca e um carrinho? Uma criança precisa ser encaminhada.

Este é o instante em que Pedrinho pensa "Então, será que eu sou o que meu pai queria que eu fosse? Se não, quem eu seria?" (...) Mas jamais ousaria enfrentar Pedrão, o pai de família, que discutia com a voz mais grave e expressando opiniões superficiais de maneira tão estrondosa que parecia sempre estar com a razão.

- É verdade, pai. Eu não seria. Mas será que o projeto trata disso mesmo? E será que é correto um pastor, um deputado e pessoas como o senhor discutirem isso, ou seria o caso para psicólogos e educadores discutirem, inclusive os próprios homossexuais tratando das dificuldades que tiveram na infância?

- Pedrinho, ninguém pode mandar nas nossas crianças. Estamos vivendo uma ditadura gay.

- Quem é o líder dessa ditadura, pai?

- Os viado!

- E cadê a censura?

- Pedrinho, não inventa. Tudo agora é homofobia. Se um homem me canta na rua e eu bato, sou homofóbico.

- Se uma mulher te canta o senhor bate?

- Se for gostosa, só se ela pedir. - Pedrão debocha com outro riso sonoro, enquanto sua esposa Amélia prepara o jantar.

- Ah, pai. Só falta o senhor falar que acredita em Adão e Eva.

- Filho, acabou de dar um ótimo exemplo. A Constituição Federal diz que o país é laico, ou seja, sem religião oficial. As escolas possuem ensino religioso.

- Ensino religioso não, pai. Nunca aprendi na escola o que é um preto velho, quem foi Chico Xavier...é ensino católico.

- Tudo bem. Encaminhamos nossas crianças para a Igreja. Quando crescem, fazem o que querem, aptas a escolher se querem ser espíritas, evangélicas etc. Da mesma forma, homem tem que ser educado pra ser homem, e mulher pra ser mulher.

- Mas pai, o que é ser homem e o que é ser mulher? Não fomos nós que criamos o gênero?

- Não, porra! Homem é homem, tem barba, usa calça. Mulher tem cabelo comprido, usa saia.

- Mas pai, e na Escócia? Tem um livro de Nietzsche, "A Genealogia da Moral", que diz que...

- Pronto. Começou com filosofia. Cuidado, todo viado é metido a intelectual.

Pedrinho calou-se. O pai continua:

- Pedrinho, estou dizendo que continuaremos criando homens como homens e mulheres como mulheres, edepois, quando a criança crescer, que faça uma escolha livre. Quer ver só uma coisa...qual é sua religião?

- Católico. Não praticante.

- E a do João Pedro?

- Católico espiritualista.

Fez silêncio na sala. Pedrão pensou que sairia um gol agora, mas enganou-se tomando outro gole de cerveja.

- Pai, então o senhor é contra esse tal projeto.

- Sim, e sou contra a ditadura gay.

Pedrinho se levanta para dar uma carona para Pedro Henrique, o irmão mais novo que vai ao colégio.

- Olha aí. Esse é meu garoto. Ficou lindo com a camisa da seleção! - exclama Pedrão, orgulhoso.

- É que hoje faremos um trabalho sobre a copa no colégio, pai. - responde o garoto, não muito empolgado.

- Você não joga futebol?

- Não. Na verdade tem aula de futebol, mas eu fico na sala estudando.

- Ih, tô te estranhando, moleque...

- É que o Pedro Henrique gosta de vôlei, pai. Olha a altura dele, já está quase me passando nessa idade! - diz Pedrinho, abraçando o irmão.

- Tudo bem. Mas filho meu é macho. Hoje mesmo vou matricular o Pedro Henrique no futebol. Daqui a alguns anos, vou tentar colocá-lo no sub-15 de algum clube brasileiro!

- Mas pai, você não ouviu o garoto dizer que gosta de vôlei?

- Sim. Mas ele vai aprender futebol. Depois, quando crescer, ele escolhe o que quer.

Para quem não conhece Pedrinho, vide crônicas "Pedrinho, o cidadão comum, o homem de bem" / "Cinco Pedrinhos foram passear..." no blog carolinayephram.blogspot.com.