segunda-feira, 31 de março de 2014

De quando Lígia deixou-me, restara-me a vida, e só: Ligia era tudo. A saudade ressuscita o seu olhar envaidecido quando antes mesmo do café já estava disposta a brincar com as flores. Se Lígia era anjo ou mulher não sei, mas despertava beijando-me com cautela - um estalar dos lábios que rispidamente se afastam para não me tirar de um sonho, ou ainda o medo de acordar com meu jeito grosseiro de dizer o que penso e fazer o que quero. Aprontava-se tão logo que o sol raiava, amaciando os longos cabelos que tampavam-lhe as costas e escondendo qualquer parte do corpo que insistia em aparecer apesar da camisola. O que Lígia nunca soube é que não era necessário mais do que isso: do que o cheiro da minha pele sobre a dela, sobre as costas brancas e o esparramar dos cabelos escuros pela cama, de modo que pudesse atracá-la no pescoço, com meus lábios a morrer no cais. E atendia ao meu prazer com seus gestos inesquecivelmente delicados - Lígia não é mulher de se esquecer -, e gemia com seus olhos fechados como quem adormece, ou como quem sonha; entregava-se ao sexo dizendo ser minha, ali, de corpo e alma. Parecia querer alcançar-lhe o útero na intensidade com que me tinha para dentro dela, como se pudéssemos ali ser duas almas num ser só, ou uma alma única, alma gêmea. Minha Lígia, minha querida Lígia, não deixei de te amar nem só por um segundo, nem de usar o anel que me deixou - nesse instante, beijo a aliança de ouro, como num bastar de redimir de todos os pecados. Lígia era anjo, era o meu anjo, e fora embora com o seu perdão. Recordo-me no instante de abrir os olhos qual o cheiro de seus cabelos espalhados no travesseiro, e essência melhor de perfume não havia senão o doce que exalava de sua pele, mesmo antes de um banho, ah! Lígia... E como encontrava a maneira de deitar-se em meu peito até que o rostinho delicado se perdesse em meus braços e suor, e de forma a não querer acordá-la, despertava antes e acariciava-lhe a face dizendo-lhe o quanto era amada. É verdade, Lígia, se não disse em tempo da última vez em que devia ter dito, sinta no ecoar do brilho das estrelas nessa mesma madrugada que meu amor ainda vive e é seu. Toda vez que me ver falar de amor, Lígia, falo de ti. Como adormecer se me atiro na cama rendendo-me ao cansaço de ter mergulhado os olhos nos livros, esperando que venha aconchegar-se com o rosto em meu peito? Como que ousa despertar na manhã o meu intento solitário, com o canto dos pássaros e sem te ver cobrir as partes do corpo que eram minhas, inteiramente minhas, mas que Lígia proibia que a visse descoberta na cama? E em qual de todas as espécies de rosas encontrarei o cheiro que estava presente no rosto, no pescoço, nas mãos, nos pés, no corpo e na alma de Lígia? Dei o gole mais grosso de bebida agora, como se pudesse enforcar-me de asco e torpor, de todo o meu remorso. Perdi alguns botões da camisa e tentei tirar os sapatos, embora a imagem fosse turva e os móveis da sala estivessem andando. Exalava cheiro de bebida, e por isso me odiava mais, porque a casa fedia a todos os tipos de cachaça porque não tinha mais o cheiro de Lígia, nem sua alegria, nem o seu cantarolar com os pássaros pela manhã, nem meu peito mais tinha o seu rosto, nem a minha mão tinha a sua. Era como o estancar do sangue em um punhal contínuo que me mata por dentro e me tortura aos poucos: a saudade de Lígia. No cerrar dos olhos como cortinas de um palco, pude vê-la entregar-se ainda a última vez, ouvi o seu gemido que, agudo passava a tomar conta dos meus ouvidos, da cama e da casa inteira. Disse que me amava. Deveria tê-lo dito também naquele último encontro, mas já era tarde para derrubar a fortaleza dos meus olhos brandos que hoje mais parecem negros e profundos de tristeza (e remorso). E se não disse, querida, sinta onde quer que esteja. Na cama que é nossa, no peito que é seu, na pele e no coração (e na alma). Volte para ser minha, contra o tempo. 
De quando Lígia deixou-me, restara-me a vida, e só: Ligia foi tudo.