quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Uma terça-feira qualquer com outros dez sorrisos a mais

Uma terça-feira à tarde, morrendo de calor. Ops! Melhor: uma terça-feira à tarde, bonita e ensolarada. Pronto. Agora começo. Era uma vez...não, espera, vou contar, preciso contar de qualquer jeito, mesmo que não entendam. É que saí do trabalho para uma diligência urgente necessitando de um táxi, mas eu juro, escolhi qualquer táxi, um táxi comum, como todos os outros, mas não era qualquer taxista, era Rodolfo. Logo que entrei, Rodolfo perguntou em qual andar exatamente eu trabalhava, porque "Sabe o que é, Carolina, eu trabalhava lá também e tomei um golpe de um filho da puta!" Filho...da...puta. (...) Rodolfo estava nervoso, porque era uma terça-feira calorosa, mas para mim era diferente: terça-feira ensolarada. Então, decidi mudar o ânimo de Rodolfo. Deixei que desabafasse e, enquanto dizia que perdeu tanto dinheiro e precisou refazer a sua vida depois de ter sido golpeado como gerente financeiro, elogiei o fato de que rapidamente foi capaz de arrumar outra profissão, e que apesar da vida ter dado pedras, continuou distribuindo flores, sendo um homem honesto. Enfatizei como isso era belo e como sua esposa e família deveriam estar orgulhosas. Rodolfo refletiu, notei pelo espelho que passou a sorrir e comentar qualquer coisa engraçada, e assim seguimos rindo até o final da viagem. Rindo mesmo, porque sou meio boba, sabe, dizem que tenho espírito de criança, faço piadinha de tudo, fico rindo o tempo inteiro. Até errou o caminho, mas deixei passar despercebido porque pensei que precisasse ficar mais tempo naquele táxi, afinal por que estava naquele táxi e não em outro, senão para conhecer Rodolfo? Quando nos despedimos, deixou seu contato comigo e pediu que ajudasse a recolocá-lo no mercado de trabalho em sua área, pois necessitava, carregava dívidas. Estava traçada minha meta - brevemente uma razão de vida. Mas logo depois, uma colega advogada apresentou-se totalmente abalada, nitidamente incapaz de resolver os seus problemas diante do estresse. Tomamos um café e - dizem as más línguas que sou articulada, que tenho o dom de palavra, que isso, que aquilo...-, aproveitei essa tal habilidade para convencê-la de que a vida era boa e a terça era ensolarada. Ué, na praia não gostamos de sol? Então, tá aí o sol, só não a praia, mas poxa, o sol! Ela entendeu. Ainda que não fosse verdade que a vida era doce, nem mesmo ao seu café faltava açúcar: fiz com que acreditasse, porque eu "tinha o dom da palavra". Despediu-se sorrindo, dizendo que pensaria em mim e naquelas palavras para sempre, e que iria se cuidar melhor. Ah, o sol se pondo...mas antes disso eu precisava voltar. No caminho de volta, um gentil senhor era o taxista, e quando entrei - de imediato suplicando o ar condicionado, não que me incomodasse a terça ensolarada -, notei que os vidros fechados fizeram impregnado o carro de cheiro de biscoito. Constrangido, ofereceu-me quatro biscoitinhos que estava comendo porque não tinha almoçado e estava com muita fome, pedindo desculpas e alternando entre as mãos um biscoito, o volante, outro biscoito, o volante, e sim, aquilo foi o máximo. Não interessa que eu detesto cheiro de biscoito e sou alérgica a qualquer coisa - inclusive a pessimismo e mau humor -, olha só como esse senhor dirige bem mesmo comendo biscoitos! - pensei. Estava chegando em casa, finalmente farta de um dia cansativo, mas sutilmente produtivo, ao tempo em que talvez eu tivesse mudado algumas vidas. Será? Antes de deitar, lembrei de Rodolfo. Calma, Rodolfo, com o tempo terá seu investimento de volta. Eu era passageira; Rodolfo virou a minha meta: vou ajudá-lo, mas vou, ah se vou! Não saio dessa vida sem fazer Rodolfo sorrir outra vez, só mais uma vezinha. Imagina só, gente, que bonito, se na terça-feira que vem, Rodolfo recupera o outro emprego, consegue melhorar a situação de sua família e, na tarde ensolarada, dá um (agora sim) caloroso beijo em sua esposa, comemorando esta vitória e que na vida nada é mesmo por acaso, nem o táxi, nem o troco, assim como uma terça-feira não é só uma terça-feira. Com o troco eu comprei um chocolate - felicidade besta da qual não me lembrava há muitos meses -, como é bom comer um chocolate, parece até que a vida inteira é doce, doce, doce, doce e enjoativa de tanto ser doce como chocolate branco. Doce e terça-feira, porque todo dia é dia e a hora é já: de ser feliz. E vá lá sorrir para todos, mudando uma vida, mudando o mundo. Quem sabe se, num dia desses, Rodolfo não me encontra cabisbaixa, quando eu, humana que sou - mas otimista e intensamente feliz por natureza -  tiver esquecido dessa conversa, afinal, o que se dá, se recebe, moeda por moeda. E se não der certo, tudo bem, o sol nasce para todos de qualquer jeito, não é mesmo?