segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Breve relato de um sol da tarde

Tomada pela inércia de meus espasmos mentais, debruçada sobre um corrimão, trouxe com os olhos a imagem dela para mim; na redoma envolta na pupila, esmaecendo o cenário à minha frente. Ele, engravatado, foi pra quem apertei o gatilho, no olhar faminto desenfreado que me toma a expressão em promíscuos devaneios. Pobre rapaz - presa minha - alvo indesejado tomado pelo sol nas poucas frestas de sua pele à mostra, com as mangas da camisa branca dobradas alcançando o antebraço. Devolveu a expressão, encaixando cara a cara, olhares famintos e o meu disperso a encontrá-la em qualquer um que estivesse à minha frente. Não vi os seus olhos, mas a má feitura de uma barba no contorno de um mulato - combinação à qual qualquer um cederia; a velhinha de bengala na esquina com um depósito de fetiches, aqueles com os quais ninguém sonha que aquela pele desgastada pela vida seria capaz de rezar; o rústico de expressão incrédula todo tatuado ao meu lado esquerdo e a mocinha bem casada que lava, passa e dorme. Por que não eu? Morena...quer dizer, moreno, pra que pressa? Aproximou-se cercando a paisagem de sombra com seus ombros largos, sorriu para mim pedindo o telefone. Tomei por entre os dedos seu cigarro, dei um trago, fiquei devendo um sorriso, soltei a fumaça e dei partida. Saí às pressas, esquivando-me de sua melanina que tanto me completaria a pele branca quase radiante. Prefiro o sol. De longe a frustração; não me olha assim, mulato, não é nada com você. É que, nessa altura, já não sei de cor meu telefone, esqueci o endereço e nem tente perguntar meu nome; nem tampouco aonde vou, quem sou, o que seríamos. Nada. Se é que somos, que fomos alguma coisa por um sofrido lapso de protagonistas desinibidos de uma cena ensaiada de amor inventado. Romântico teatral, bonito; fatídico, causou-me, enfim, alguma emoção. Mas fico te devendo um sorriso; e quiçá um autógrafo, agora todos sabem de sua existência. Mal sabe você que, além do trago, significou alguma coisa. Aqui vai um segredo: eu não fumo. E detesto cigarros.