quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Vai com calma, Seu José, as mulheres não clamam seu estupro

"As mulheres pedem para serem olhadas" - vai com calma, Seu José. Estava acabando o meu jantar em um restaurante da cidade quando, na despropositada escolha de um lugar onde a parede de vidro ao tempo em que me separava me deixava tão próxima das pessoas que sentavam-se fora, fui obrigada a pedir uma limonada. "Sem açúcar." - disse farta - "Eu quero bem azeda!" E assim suspendi a conta que já vinha chegando na mesa para o exercício maldito de ser espectadora dos outros. Seu José era um homem bom, dividia a mesa ao lado com outros dois amigos e provavelmente a conta. Seu José veio ao restaurante só para pedir cerveja, e o copo vai e volta da sua boca enquanto a minha limonada ainda nem chegou.  José veste calça jeans e camisa social, está em pleno happy hour e hoje a sua esposa só deve ter limpado o chão da casa inteira, levado os filhos para a escola, lavado as suas cuecas e pobre dela se não tiver escolhido a camisa que José usará amanhã.Falta uma hora para o jornal nacional, José deve chegar em casa no mais tardar na hora da novela para se sentir mais José do que nunca: o homem bom tem oito amantes, faz filho como uma máquina, rejeita um amigo gay e cria um bom Zezinho, que nasce macho, tão macho que ai se não comprarem roupinhas azuis! Mas voltando ao seu José que nem chamava José, fui eu que coloquei esse nome nesse homem tolo sentado ao meu lado sentindo-me no mesmo direito que Zezinhos já se sentem - se Zezinhos escrevessem essa história chamariam qualquer mulher de gostosa, delícia, cachorra, vagabunda no lugar de Maria, Joana ou Josefa. Sim, agora posso ser clara: José além de tudo é estratégico, sentou-se na beira da calçada e está curvado de lado para os amigos, de modo que de um lado possa participar da conversa e de outro lançar o seu olhar 43 para as moças que passam na rua - moças não, presas! Moças não, José, esse bando de gostosa e de vagabunda com um vestidinho curto por mais que esteja um calor de 35 graus em são Paulo. Não sei como José consegue seguir com os olhos todas as mulheres que passam sem ter torcicolo - sim, José acompanha as mulheres com os olhos e eu acompanho com os olhos José. Já me encarou duas ou três vezes, mas nem sonha o que é literatura, nem que todo mundo, quando eu for embora do restaurante, saberá quem é José. Mas um dia Zezinho, lendo isso, ficará orgulhoso de seu pai. José não perdoa, é viril: olha todas as mulheres e comenta com os amigos alguma coisa que o vidro ou o grau de intelecto não me permite traduzir. Parabéns, José, você é macho e fez todas as fêmeas driblarem a calçada porque estão olhando com medo de seus comentários que elas sabem que estão por vir. José tem olhar agressivo, e voltou a se esticar na cadeira como se todas as mulheres na rua fossem pagas por ele para desfilarem diante de seus olhos e e se tornarem alvo fácil, indefeso. José, você não disfarça, a sua libido é tão forte assim? Imagino que em poucas horas você estará roncando suado com sambacanção e meias enquanto a sua esposa ensaia o discurso de criar uma filha bem casada: lavar, passar, cozinhar e não gozar. É, José, você podia ser mais do que isso. E o problema não está nas mulheres que passam, José já fechou a rua. O problema está em mim, em você e até nelas que deixam tantos Josés à solta - tem José no judiciário, tem José na delegacia, tem José na novela das oito, tem José na reunião de pais da escola, tem José comendo a sua mãe, sua irmã e sua filha com os olhos nesse momento. Não, eu não sei a solução desse problema, se não acertei nem as gotas do adoçante. O que sei é que isso não mais é um restaurante, mas uma vitrine de bundas, peitos e gostosas. Chegou a conta e José já está incomodado com as vezes em que olho seu comportamento grotesco como quem estuda um selvagem em jaula. O que foi, José? Doeu estar na jaula para ser observado sem saber quem te colocou aí dentro? É assim que as mulheres se sentem, companheiro, e você podia  terminar a sua cerveja sem ter interditado a calçada intimidando as vítimas do seu estupro mental. Covarde, sujo,  frouxo. Agora eu estava entendendo tudo: José era culpado! Culpado pelos estupros, pelo machismo e por todas as violências de gênero. A culpa é do José; Zezinho ainda é inimputável, Pedrinho não é machista, mas quando viaja para a casa da namorada nunca lava a louça, e Joãozinho entende que é um absurdo uma mulher de roupas curtas reclamar caso seja estuprada. E você? Você está lendo e eu estou escrevendo e a calçada continua interditada. Ah, José? Vai para a casa, terminou a sua cerveja. Mas atenção, mulheres: ele está solto. José é uma praga dos tempos modernos. José é vírus perigoso e aparece em tudo: aparece na sua casa, na escola de seus filhos, na faculdade, no ambiente de trabalho, na rua, na casa noturna, nos bares e restaurantes e dentro de seu vestido. É, cuidado, mulheres: José adora vestido. "Previnam-se!", aconselharão os Zezinhos.