segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sinal de socorro

Parece que a vida tem me colocado personagens debaixo dos olhos, todos os dias. Como sempre fiel à realidade, o que vou contar me é ainda uma lembrança quente, que acabara de acontecer. Começa assim:
Era uma vez uma senhorinha que subia a escada rolante do metrô com a mão direita sobre o respectivo olho e o outro olho fechado (a senhora era oriental). Como alguém se propõe a subir na escada rolante de olhos fechados? Por certo com este pensamento, eu, na escada ao lado, fitei a senhora tentando compreender essa loucura. Rapidamente concluí, então, que estivesse enferma. Um rapaz à frente dela curvou-se para trás para olhá-la, e na minha mente desde logo seus olhos de bom moço foram a minha nota de rodapé até que eu chegasse ao escritório para falar sobre ele. Tinha barba, mas tanta barba cercando-lhe todo o semblante que só posso me recordar do branco dos olhos. E da barba preta. Barba, cabelo, nem sei: começava em cima da cabeça e descia escorrendo para o rosto como a catarata negra, mais barba do que homem. Camuflado no semblante selvagem, notei que seus olhos eram olhos de bom moço, olhos de menino preocupado quando a bola cai no quintal da vizinha. Mas, como eu, preocupado com a senhora. E quem tem a audácia de abordar uma pessoa desconhecida na rua se julgando capaz de ajudá-la? Nós não tínhamos, mas era nítida a preocupação quando o rapaz olhou para a senhora, eu olhei para a senhora e eu e o rapaz nos olhamos. Ao ler este trecho, dê pausa no controle remoto: olhamo-nos. Éramos dois seres despidos de toda nossa coragem indagando-se com os olhos, sendo levados pela escada rolante para sabe-se lá qual destino. Continuávamos nos olhando, fixamente, olho no olho. Suas sobrancelhas fizeram-se mais notórias no franzir da testa, quando me encarou com veemência. Lancei, sobre ele, o mesmo olhar preocupado, um olhar já quase enfermo, era uma roleta russa: quem ajuda a senhora primeiro? Parecíamos, no olhar cruzado, precisarmos muito mais de ajuda do que a senhora, quase que ajuda um do outro. Doaria metade que sou e ele metade que era para socorrermos a senhora inteira. Paro aqui, ou quase tropeço. A escada atinge seu percurso, o rapaz segue para outro corredor e eu para o lado oposto. Seguiu o barbudo deixando seus olhos de menino sobre a senhora, preocupado, mas omisso. Foi quando a senhora diminuiu o passo, e era destaque entre todos os passageiros apressados escravos do relógio e filhos indesejados do cotidiano paulista. Não resisti, antes mesmo da catraca, não tive pudores em pegar a contramão e fui na direção da senhora.
- Com licença, senhora. Está se sentindo mal? Posso ajudá-la?
Com dificuldade em abrir o único olho à mostra, a senhora sorriu mais docemente do que eu sorriria em toda a minha vida.
- Não, meu bem, fique tranquila, é só uma crise de ansiedade. Pode terminar seu caminho...
- Mas a senhora não está bem! Eu sei o que é isso. Aonde a senhora vai agora? - coloquei a minha mão sobre seu ombro, sobre aquela baixíssima estatura de senhora indefesa (e como pode alguém conseguir ser mais baixo do que eu?). Mas repousei com carinho a mão sobre ela, porque amava senhoras e senhores só pela coragem de ter suportado a vida tantos anos. Deve ser por carregar nos ombros o peso da existência amarga que todos andam com dificuldade, em passos lentos, quando não apoiados em bengala. Sei mais do que pensam sobre seus cabelos brancos. Ah, a senhora respondeu-me:
- Não, bem, eu vou andando devagar e passa. Faça seu caminho, não fique preocupada comigo, pode ir, tá?
Tá, ué. Tá. Tá, eu vou. Tá, tá, tá, tá... Eu fui mas levei a senhora comigo, no coração aflito de saber se já alcançou o seu destino andando com os olhos fechados e a mão sobre a testa. E que hábito esquisito. Eu, vítima de minha própria insanidade ousando em querer ajudar alguém. Agora estava só, a senhora havia se livrado de mim, anjo de asas cortadas. Mas vocês não sabem como dói a solidão de não ser cuidada e não ter de quem cuidar. Nem senhora, nem barbudo. Nem nada. Por isso adotei um hábito: respirei fundo, fechei os olhos, coloquei a mão sobre o olho direito e segui em frente. Socorro! Encontrem-me.