quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Repentina

Repentina como a brusca lua
Poema que sou, lírica inteira
Tenho a pele como o fardo da vida
E na alma o dilacerar do meu
Ser
Sentir
Sofrer.

Agora mesmo almejo um estado de euforia
Abrindo o vinho como quem abre a porta de casa
Para sair pisoteando as curvas de malgrado da vida
Repentina que sou
Como o chão que se deita para ser pisado
Que mesmo que não seja percebido
É a base e o começo de tudo
(Os mais longos edifícios de São Paulo
Também começaram no chão
E eu carrego nos ombros
Todos os edifícios de São Paulo.)

Outrora toca-me a insana obsessiva
Suicida mórbida, de repente o desprazer
De desprazer o desprezar da vida
A vida que me atiraram no colo
Para que eu fizesse qualquer coisa com ela

E hoje é ela quem faz de mim qualquer coisinha
Juíz, réu, advogado
Apaixonada, psicótica, obsessiva
Cruel, doce, amada
Ora desprezível, ora desprezada
E ora desprezo
Outrora ensejo
De repente sou, não resta nada
Gostei de ser
E sigo sendo de repente
A vida inteira
Qualquer coisa
Porque qualquer é tudo.

(Pode ser que eu morra nesse segundo
E pode ser que, morrendo, eu esteja mais viva 
Do que vivendo eu estaria a morrer 
Adiando o pesadelo da vida
Criança que sou, tenho sonhado tanto
E em todas as noites acordo asssutada
Como o parto de um feto qualquer 
Que nasce morto e já rejeita a vida
Preceito da morte, porque também a rejeita.)