quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Relíquia e cântico trovador

Largou meu amor numa relíquia
Num cântico romântico trovador
Colocou-me a correr feito lagartixa
E sumiu serenando o nosso amor

Que não é mais aquele fogo ardente
Nem veneno de serpente, mansidão
Nosso amor virou cinza ainda quente
Que fumou e deixou cair no chão

Mas amor não se acalenta ao vinho
Nem cozinha com fogo baixo assim
Se me desse seu fogo e seu instinto
Eu devolveria muito mais que o fim

Mas quis só ser mais uma prometida
Jurando amor e vida, a minha mão
Sobre a tua mão de genocida
Está mais calejada que peão

No contraste de conto ao contrário
Tinha sapo, princesa e fim feliz
Mas de nós o que fez? Um relicário
Negando a vida inteira por um triz

Não é mais seu sorriso que convence
Onde atua que pensa enganar
No teatro de riso aparente
Tão vazio quanto a noite sem luar

E esse outro que canta ao seu ouvido
Pobre dele se lembrar de mim
Como pobres das moças de vestido
Se pondo a enfeitar o meu jardim

Se a rosa que tinha era sua
E tudo o que era era meu
De pensar que se dava toda nua
A quem ousa martirizar plebeu

Quem beijará os seus pés com devoção
E te dará um tapete vermelho
Prometendo a alma e o coração
Olho no olho e de joelhos?

A lembrança sua, amanhecida
Da pele molhada e o cobertor
De beijá-la inteira enaltecida
Com o gosto e o cheiro de um amor

Que fizemos escrito à maestria
Sob, enfim, este pobre trovador
Que pra fazer bela uma poesia
Ganhou na rima e perdeu no amor