quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Recado na garrafa

"Moço, você abriu esta carta. Olha, moço, você abriu só pra saber que dói. Dói que me arranca o couro da alma, moço. Dói de arrebentar as fibras do peito. Dói de partir ao meio esse osso aqui - escrevo dando duas batidas contra o peito, com o punho fechado para ver se dói mais do que está doendo agora. Dói, moço, cê não tem ideia. Dói de acordar, de abrir os olhos e saber que cada manhã me pesa um fardo. Dói de não fechar os mesmos olhos para dormir à noite, quando o corpo descansa e o resto dói. A alma dói, moço, dói de dilacerar o peito. Dói de um jeito, mas de um jeito, moço, que até remédio já me deram pro coração. Mas sabe, moço, homem de jaleco só sabe mesmo de coração, não de sentimento. Essa veia aqui, moço, essa veia bem visível no meu braço direito com que escrevo esta carta, de nada serve se a alma não tem paz. É verdade, moço, e a minha alma lateja, o meu peito arde e meus olhos te provam - a carta passa a ficar molhada. Mas não esquenta, não, moço, essa dor é minha e eu cuido dela. Às vezes penso que é passageiro; outras, quero morrer."

Com estas palavras amassei a carta e, sentindo a maciez da areia da praia sob a sola dos pés descalços, coloquei dentro de uma garrafa e joguei no mar, com lágrima, letra borrada e endereço de resposta. Retornou-me assim:

"Moça, cê não é muito nova pra tá sofrendo desse jeito? Eu que nem canhoto sou, te respondo com a mão esquerda porque a direita tá ferida do anzol. E dói, viste? Dói arrastar esse barco pra cá e pra lá. Mas não é todo dia que nóis faz pesca não, viste? Tudo depende da maré. Óia, deixei essa conchinha dentro da garrafa procê guardar de lembrança. O povo diz que dá até pra escutar o barulho do mar."

Guardo até hoje a concha. E entendo que tudo, tudo depende da maré. Com anzol ou sem anzol, ainda me dói o peito. Dilacera a alma. Retalha, mói: faz estilhaço.