sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Pedrinho, o cidadão comum, o homem de bem

Pedrinho era menino quando seus pais vigiavam sua agenda da escola. Bom aluno em educação física, mediano em humanas, regular em exatas. Quando fez dezesseis anos, Pedrinho iniciou um cursinho, além de estudar em um dos melhores colégios de sua cidade, para que fosse aprovado no vestibular de uma universidade pública. Quando fez dezoito anos, Pedrinho recebeu duas surpresas: primeiro a aprovação no vestibular, mas em universidade particular, segundo um carro, de presente de seu pai, entregue na cor preta e com um laço vermelho. Pedrinho tinha orgulho dos pais, tanto orgulho que por vezes até fazia o esforço de sentar-se à mesa de jantar para ouvir as intermináveis histórias de seu avô. Família era importante, Pedrinho reconhecia isso, e sonhava em se casar, mas quando pequeno provocava gargalhadas em seu pai porque dizia que tinha várias namoradinhas na escola. Pedrinho começou a namorar; tem uma namorada linda – linda! O que mais importa? - assim, de novo, Pedrinho era o orgulho de seu pai. Agora a mãe de Pedrinho estava sossegada, porque Pedrinho dormia na casa da namorada no lugar de desfilar pelas casas noturnas com o carro importado. Pedrinho era popular, tinha vários amigos. Na balada, Pedrinho era herói: calça jeans clara, sapatênis gelo e uma camisa polo apertada nos braços inchados da musculação que começou a treinar há exatas três semanas, embora a sua mãe desconfiasse de que seus supostos músculos não eram tão naturais assim, pois Pedrinho nunca estava na academia. Faltou um detalhe: as marcas, e não são detalhe. Detalhe é pífio, detalhe é pequenez, desimportante, e Pedrinho valorizava as boas marcas de roupa. Da cabeça aos pés, Pedrinho valia um carro popular na capital de São Paulo. Apesar disso, Pedrinho era simples, e detestava gente interesseira: mas fez questão de provar para a sua sogra que a boa filha chegará sempre de carro importado em casa, terá em um ano um apartamento e nunca, nunca pagará a conta do restaurante. Pedrinho é um bom cidadão, atualmente almejando um mestrado, já se formou e com muito orgulho postou na rede social que não leu mais do que três livros até hoje. Pedrinho ri porque cursou uma universidade na condição de consumidor (Pedrinho não foi aprovado na universidade pública e decidiu cursar a faculdade mais cara da capital), e realizou um fato inédito: pagou, mas não fez questão da prestação de serviço. Aula não era com Pedrinho, mas um bom baseado escondido no tênis, sentado no fundo da sala, fones de ouvido para um bom reggae e cartas de baralho. Presença era obrigatória na faculdade, senão Pedrinho estaria todos os dias no bar, onde gostava de se apresentar de bermuda e chinelos, porque surfava, e porque era um garoto simples, desleixado. Mas na casa noturna Pedrinho usava a melhor camisa social. E não temos nada a ver com isso.
Essa é a vida de Pedrinho, hoje um bom cidadão. Pedrinho está com a mesma namorada, jura ser fiel e quer ter um filho, mas não uma filha. “Menina dá muito trabalho.” - reclama, é preferível um bom galanteador do que um gênero tão indefeso e preocupante quanto o feminino. Pedrinho vai incentivar Junior a ter várias namoradinhas na infância, pois quer que seu filho seja homem, como ele e seu pai. Homens de h maiúsculo, "trabalhadores e estudados", como gosta de dizer. E por trabalharem e estudarem tanto (mas Pedrinho não tinha lido só três livros na universidade?), Pedrinho estava realmente revoltado com os vagabundos dependentes do bolsa-família. Pedrinho cresceu dizendo: nunca dê o peixe, ensine a pescar. E não se conforma que esses malditos colhedores de maçãs se contentem com um auxílio tão baixo a vida inteira, e nem queiram trabalhar como ele trabalha. Pedrinho trabalha dia e noite no escritório de seu pai, e é tão cansativo que precisa relaxar em plena quarta-feira bebendo uma torre de chopp com os amigos e gastando o equivalente a metade do bolsa-família. Mas quem pensa que a vida de Pedrinho é fácil, se engana: Pedrinho estava pronto para viajar para o exterior, até que o governo federal elevou os impostos para despesas de brasileiros em sede internacional. “País da copa, país de terceiro mundo!” - criticou, inconformado. Calma, Pedrinho, leve dinheiro na mochila, porque os países de primeiro mundo são muito mais seguros do que o país do futebol, ao menos é o que você diz. É verdade, Pedrinho, nós sabemos das mazelas brasileiras, mas não entendemos o fato de você reclamar tanto e sempre voltar para a casa. Não adiantou questionar, Pedrinho retrucou dizendo que paga impostos, e porque paga impostos, tem direitos. Pedrinho faltou nas aulas de Direito Tributário, e exercendo um ato obrigacional, se julga merecedor até da liberdade de expressão: Pedrinho defende a liberdade, a mesma que permite rir das piadas de “gordinho” e outras de cunho racial. Para Pedrinho, é humor. E Pedrinho até sabe bem a destinação dos impostos, mas se previne com carro blindado e alarme na casa, tem seguro para o Ipad e celular, e vive irritado cobrando punições mais severas e leis menos brandas para conter a delinquência. Redução da maioridade penal é o foco: e ninguém precisa saber que Pedrinho se matriculou na academia para arrumar uma briga no bar, nem da maconha dos tempos de faculdade. Para Pedrinho, bandido bom é bandido morto, direitos humanos são para humanos direitos, negros precisam rir de suas piadas racistas e disfarçará o seu machismo na condição de bom marido em que tanto sua sogra acredita. Bolsa-família é coisa pra vagabundo, que não busca oportunidade, que não foi como Pedrinho que teve o pai para bancar o melhor colégio, o melhor cursinho e pagar uma universidade no valor de quatro vezes o benefício. E ninguém discute com Pedrinho, homem culto e bom cidadão. Primeiro porque Pedrinho arca com todas as suas obrigações tributárias, embora sejam de elevado e inadmissível valor, segundo porque Pedrinho é dono do conhecimento e conhece cinco países. Você precisa conhecer pelo menos oito para discutir com Pedrinho, que irá te convencer a estudar nos países de primeiro mundo. Pedrinho almejava a universidade pública, mas quando você defende o bolsa-família, te acha um socialista de merda e usa o termo como ofensa, mas nunca saberá a diferença entre comunismo e socialismo, embora sejam xingamentos alternativos, já que deve estar escrita nos livros que não precisou ler para ter diploma. Pedrinho agora termina o mestrado, e atende por Pedro, mas dizemos Pedrinho porque é mais carinhoso, afinal, como todo bom moço e cidadão de bem, católico, defensor da moral e dos bons costumes, não irá se importar com isso. Outro dia soube que Pedrinho, no restaurante, discutiu com os amigos dizendo que era um absurdo o seu pai gastar tanto dinheiro para cursinho e enfim conseguir ingressar em uma universidade, enquanto um negro usufrui da cota racial e ocupa a cadeira ao seu lado. Pedrinho nunca soube como funcionam as cotas raciais, e ninguém da mesa faz a menor ideia sobre isso: todos aplaudem. Todos os brancos aplaudem, e pardos também. Pedrinho era bem informado: disse que amigos pardos utilizavam o benefício por malandragem, mas Pedrinho já cansou de furar a fila do banco e estacionar o carro em vagas preferenciais. Pedrinho entende que todos tem direitos iguais, sejam negros, brancos, homens ou mulheres, e no dia da consciência negra, clama por consciência humana. Todos gostam de Pedrinho, menos eu. O mundo ficaria melhor sem Pedrinhos. Mas, dia após dia, encontramos pedras no caminho. Hoje mesmo estou cheia de pedras no sapato. Cheia de pedras, de pedrinhas, de Pedrinhos...