sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Outrora viva

De novo aventurei-me na morte
E como tal a sorte, embriagada
Sentindo pulsar o sangue
Como o expurgar de minha própria companhia
Cá estou, gentilmente enferma
Com o sempre-leve sorriso nos lábios
Com a certeza de que, indo agora
Fui metade de mim e ainda sou
A pele pálida tão esbranquiçada
É a obra de arte de veias coloridas
Pareço sentir que me corre o sangue
Por cada parte do corpo como uma benção
Milagre de vida
Nasço de novo
E permaneço.

Outrora viva
Ainda a dilacerar o peito forte
As fibras do meu coração insistem
Como no suplício de um amanhã
Não é que eu seja mesmo suicida
Mas almejo provar todos os gostos da vida
E bebendo-a num cálice inteiro
Brindo porque vivo a encarar a morte
Sem medo, sem freio, sem sorte
Até que um dia me leve nos braços.

Outrora morro por dentro
Rompem as fibras do peito
Eis que revela a minha enfermidade mais grave
Ouço os dias que restantes contados
E passo a embriagar-me de vez do cálice da vida.

O coração gritante, como tambor no peito
A visão mais turva de quem mergulha no mar
A pele mais branca como quem não respira
E de febre intensa vem me faltando o ar
Sorrio na cara da morte
Beijando-a inteira, porque a possuo dentro de mim
Como um destino de prévio aviso
Vem dançar comigo
Eu vivo até que, enfim, me queira
Puta, traíra, mentirosa
Só sorri, enfim, me deixa.

(Viva.
Estou viva de novo!
Viva!)

Sorte a sua, Carolina
Que a sorte não está pra brincadeira.