segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O fato é que

Repito todos os dias o mesmo gesto: parece que seguro grades com as mãos bem firmes na frustrante tentativa de movê-las, com um silencioso apelo de socorro. Por vezes é tão grande o desespero que quando um desconhecido me sorri na rua, sinto-me solta e liberta como um passarinho que é salvo por uma criança e pelas mãos desta se põe novamente a voar, mesmo com a asa machucada. Sim, tenho asas feridas, embora seja de alma livre. Nem sempre alcanço o voo, por vezes eu apenas flutuo. Sigo vagando penada e assombrosa pelos becos de São Paulo na madrugada. E gosto do caminhar sombrio que acalenta todo o caos urbano e me faz ter a sensação de morte: por onde correm todos os carros e ônibus e milhões de pernas desgovernadas de pessoas que pensam ter rumo, debaixo do sol, quando anoitece fica vago, morto, sombrio. Andar à noite por São Paulo vai além de encorajar-se a enfrentar os eternos subúrbios e a periculosidade da metrópole, traz a sensação de viver em outra época. É mergulhar nas telas de Giorgio de Chirico e soltar um grito mudo. Pronto, defini: sem voz nem força, caminho aos berros. Desesperada, agoniada, aflita - quero mais sinônimos, não encontro - perdida, angustiada, entorpecida, alucinada, marginal. Quando me afeta a boemia, costumo me apetecer de pequenas doses de bebidas baratas em botecos que me soam sujos, como se exalasse de meu copo mais que o álcool, e sim todo aquele limbo que ao meu ver enfeita o ambiente. Não há um rio tietê para cada mente podre nessa grande São Paulo, nem para a minha. Sim, eu sei, é um hábito esquisito trocar o dia pela noite, e me custa vivenciar o escurecer debaixo dos olhos me denunciando o gosto pela madrugada. Mas é essa a minha cultura, o meu frágil estar que não é bem nem mal, é raro, delicado. De repente toca o telefone, e alguém me chama para a rua de novo, e novamente vago, marginal, sem cartão de visitas acordando São Paulo com meus berros de mudo - mesmo que eu grite aflita pelo silêncio, o grito parece transbordar pelas minhas veias a estancar o sangue que está pronto para jorrar como enchente de alguma artéria - deve ser isso o que sinto, e enquanto escrevo, noto as batidas do coração serenando lentamente. Respiro mais aliviada. Muito prazer, esta sou eu, mas não todos os dias, esta sou eu quando tenho que ser assim, poética exacerbada. Já perdi dinheiro, estou perdendo o amor, o emprego, por que não o rumo? Vou largar dessa vida, juro que vou - prometo acendendo um charuto que rapidamente inunda o quarto inteiro de fumaça. (...) Pensando bem, perder é deixar ir. Mas deixa pra lá, tem alguém buzinando lá fora. Isso eu conto depois.