terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Nunca deixe de acreditar em seus sonhos, pai

Força, pai. Estou escrevendo isto porque eu sei que vou te ver por várias vezes e vamos nos sentar na sala e rir dos programas fúteis da TV, discutir qualquer questão polêmica ou apreciar um bom rock anos 80 sem se dar conta das horas que passam. O que não sei é se vou ter coragem ou se vai ser necessário que em todas as vezes eu te abrace fortemente e diga o quanto, o quanto eu te amo. O fato é que admito me faltar coragem, e sei que nessa máscara de casca grossa já incorporada ao meu ser, posso ser um desastre verbal de amor, mas na escrita é diferente. Como te disse, pai, minhas poesias são o dilacerar da alma pelo corpo, e hoje, estou aqui, a desfrutar do amor mais lindo que existe para lembrar do quanto eu te amo. Eu sei que todos esses dias estão difíceis, que ninguém gosta de permanecer um mês num quarto de hospital, e que você teme que a sua vida mude radicalmente em virtude disso. Que não seja o mesmo homem. Mas não é verdade. Pai, se você quiser, podemos nos sentar no tapete da sala e montar aquela pista de carros que você comprava porque gostava de brincar muito mais do que eu, ou pensa que me enganou? E quando essa fase passar, vamos à praia (sempre depois do pôr-do-sol, porque amamos e detestamos as mesmas coisas, como um desnecessário bronzeado ou uma queimadura do sol do meio dia) de bermuda só para ouvir aquela gente passar de novo e dizer "Olha aí, os gringos." olhando para as nossas pernas muito brancas. E vamos rir de novo. Depois, assistiremos um jogo do São Paulo tomando um chopp escuro, e você vai brigar comigo porque eu estou olhando fixamente o celular e deixando passar a vida lá fora. Ah, eu odeio quando você briga comigo. Todos podem fechar a porta para mim, você, nunca. Mas se preciso for, brigue quando achar necessário. Eu nunca deixei de te amar por isso. (...) 
Pai, esqueça o que está passando. A nossa vida continua e tudo está perfeitamente bem, eu te prometo que tudo, pai, ficará perfeitamente bem. Mas eu perderei meu chão se você perder a capacidade de esboçar o seu sorriso de menino, então, por favor, sorria. Você merece os parabéns por ter dominado a arte de ser pai na prática, já que infelizmente Deus carregou nos braços o meu avô antes mesmo de você nascer. Mas eu sei que ele permanece por perto, de algum jeito, orgulhando-se de cada atitude sua. Paizão, eu acho que você percebeu naquela visita dos meus amigos, eu falo de você todos os dias e para todo mundo, com paixão, orgulho, admiração, amor profundo. Principalmente das nossas piadas. E a minha vida tem um brilho maior quando você aparece de surpresa e diz que faremos uma viagem, não importa o lugar mais lindo para onde vamos, importa estar alguns dias tendo os nossos momentos. O cair na piscina, o escorregar na grama e quebrar o dedo numa jogada ensaiada de futebol que deu errado. Por que você se sente tão triste agora? Eu sei quantas noites você passou acordado e quantas vezes foi preciso sair correndo para me levar num pediatra, para comprar um remédio porque, criança, eu passava mal. Que mal tem, agora, que eu perca algumas noites de sono para corrigir a sua postura de dormir? Você acha realmente que eu trocaria estar com você num quarto de hospital ou em casa para curtir uma balada? Sim, você me conhece. E sabe que a sua simples presença fez os meus dias terem muito mais sentido do que qualquer outra coisa. E o porquê você sabe, mas aqui vou ser repetitiva: eu te amo, pai.
Veja, é natural da vida sermos cuidados de forma tão bela e pura pelo amor incondicional dos pais. Mas é natural que esse ciclo vá se alterando e eu cuide de você depois de você cuidar de mim. Estamos na metade do caminho. E na reta final, eu espero estar caminhando de braços dados quando você estiver velhinho, na beira da praia (sempre depois do pôr-do-sol), ouvindo você dizer que a nossa vida valeu a pena. E para isso, recomece agora: façamos valer a pena. Nada que ocorre é por acaso. Essa fase provará a nós o quanto o amor pode ser forte de vencer tudo: na alegria e na doença, pai. Cada segundo de conversa vale a pena. Você sabe por que quando eu entro no quarto, a primeira coisa que faço é segurar a sua mão? Não é um cumprimento. Eu seguro firme para te lembrar de sermos fortes, porque você me ensinou a ser forte. Um dia descobri que você exigiu que eu fosse forte não porque deixaria de cuidar de mim, mas porque sabe que a vida bate forte também. Então aguente firme, seja forte. Nós fomos, sempre fomos fortes, pai. E quando eu olhar nos seus olhos, será como se eu te dissesse de novo tudo aquilo que você me disse: tenha fé, e NUNCA DEIXE DE ACREDITAR EM SEUS SONHOS. Foi isso que você repetiu quando me fez ver a neve pela primeira vez quando criança. Ah, você entendeu, pai? Tenha fé e nunca deixe de acreditar em seus sonhos. Você não vai se esquecer daquilo que passou metade da vida me ensinando agora, vai?
Um abraço e aquele forte aperto na mão, de quem quer que você seja forte, mais do que sempre foi. Enfrentaremos isto juntos, e quando passar, comemorações, viagens e risadas não faltarão. Porque a vida inteira vai passar e estaremos lado a lado no mesmo trem, juntos. Você me ensinou a ter fé, a nunca deixar de acreditar nos meus sonhos, e a amar da forma mais pura: eu sei que o amor de pai e filha é mais forte do que tudo. E esse amor vai te tirar dessa. Eu te amo, paizão. Obrigada por ser o grande homem que você é, foi e será sempre para mim. Duas vezes eu digo: eu te amo, eu te amo.