quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Hippie não vende em shopping, moça!

Quem me conhece sabe que eu gosto do contraste: de enfeitar a pele demasiadamente branca no adorno de acessórios indelicados de couro e cores escuras. "Hippie não vende em shopping, moça!" - disse o homem quando me flagrou reclamando, diante de um tapete estendido em plena Praça da República com seu artesanato, que eu havia perdido um colar e uma pulseira e procurado em vários shoppings sem encontrar outros iguais. De longe, sentado sobre uma lata de tinta velha, moldava um material com um alicate, e dominava a sua arte tão perfeitamente que ao mesmo tempo em que suas mãos estavam conduzindo a feitura de um acessório, seus olhos afrontavam os meus, e sorria com aquele literal sorriso amarelo, acho que tinha alguns dentes de ouro. Esqueci de mencionar que enquanto isso o sol estava se pondo - sim, meu ritual sagrado e referência de felicidade diária é aplaudir com os olhos cada vez que o sol se põe, como se fosse sempre a primeira vez. Sinto o gosto do sol se escondendo - abaixando lentamente como quem tenta tocar o mesmo chão que nossos pés tocam - como se fosse a especiaria de um primeiro beijo. E confesso que espero, todos os dias, que o sol canse de se pôr e diga que volta, diga que volta para mim, porque espero por ele todas as tardes, largada nos tijolos e lixos do centro da cidade por onde gosto de andar, porque muito espelham a minha alma. Caí no fétido, e parece contagiante, lembrei-me de imediato de um rapaz que, como eu, aprecia as velharias, a arte da relíquia de um prazer urbano com direito a todos os becos, putas, mendigos e bêbados, moleques de rua e cachorros molhados - quaisquer outros seres que, como retrato perfeito do que nossa alma apetece, degusta ou clama (talvez ele saiba me responder isso) representam a moldura do resto da cidade capa-de-revista. Marginais, fétidos! - atacam-nos, urbanizados medonhos, esquecendo-se de que provêm deles o lixo que nos depositam. Por falar em lixo, o homem sentado sobre a lata de tinta já estava terminando de construir a minha pulseira. Gosto disso: uso a palavra construção porque enseja base, tijolos, sobrados, prédios, mas nunca casebre. Pronuncio isto e já pareço sentir a alma saltitando para o vigésimo segundo andar despejando fumaça de charuto na sacada. Quem constrói, tem base. E deve ser por isso que eu tenho quase um guarda-roupas lotado de sapatos - no fundo, nenhum deles me dá a real sensação de ter os pés no chão. Então eu troco, constantemente, como se trocar de roupa fosse trocar a vestimenta da alma. No curso desses pensamentos mais acelerados que a pressa dos carros da cidade, estendi o meu braço esquerdo para que o homem pudesse encaixar a pulseira, e assim dava várias voltas - finalmente eu tinha no braço algo que me representava a vida. Enquanto todos carregam relógio porque tem hora para tudo, ou um terço porque tem fé, ou uma aliança porque tem lealdade, eu carrego um pedaço de couro enrolado dez vezes, porque eu sou assim, sempre dando várias voltas. E encontro a pontinha, a extremidade de minha alma poética num fecho de cobre. "Está quase pronto, moça. Mas fico assim, sem jeito de encostar na sua pele...", retruquei indagando-o, mesmo já tendo avistado há muito tempo as suas unhas com todas as pontas pretas e as manchas de graxa nas mãos, "Ah, porque estou assim, todo sujo." Foi a hora em que parei diante da simplicidade de seus olhos protegidos pelo suor que seguravam as sobrancelhas, debaixo daquele sol do fim de tarde - já se pondo, me deixando solta novamente -, e pensei comigo mesma se ele merecia ou não saber o que eu escondo debaixo da pele. Agradeci o trabalho, ainda com o braço estático e as mãos dele segurando-me como quem não deixa ir embora. Quando voltaram as palavras à mente, disse que jamais me importaria com isso. E corri - para não correr para seus braços pedindo socorro dessa gente limpa - corri sem olhar para trás, sentindo-me profana, suja, marginal: poética. O seu toque me deixava suja, mas de alma lavada.