segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Coração na redoma

Escrevo direto de uma redoma. Tem papel e caneta na minha redoma. Minha, minha redoma. A redoma é minha e é tudo meu. Tudo. Sento bem quieta e agachadinha no cantinho da minha redoma, com um livreto no colo que ganhei de presente servindo-me de bloco de angústias (anotações), e com os braços bem juntos abraço a dor que é minha, como a redoma de onde escrevo. Aqui tudo leva a crer, tudo vale a pena, aqui a alma não é pequena - diria Pessoa -, mas aqui tudo dói também. E porque dói, dói tudo, então escrevo. O que mais haveria de ser da poesia senão o dilacerar da alma pelo corpo? Tenho voz na ponta dos dedos e sangue na alma. Continuo calada, na redoma. Uma vez ou outra os estranhos me olham, me apontam como bicho escancarado, selvagem, faminto, cheio de tripas expostas e preso na jaula felicitando aos normais de fora da redoma pelo sádico prazer de me ter observada, nua, crua, julgada e refém de suas poesias. É que todo olhar é uma poesia. E o meu, destes olhos por trás de uma redoma, é  uma poesia angustiante, fajuta, ainda meio úmida, não é dessas limpinhas, não tem pé nem cabeça, mas tem vida. Tem braços, tem braços sim, tem braços esticados prontos para sair da redoma. Por vezes escrever me parece um vômito. O sentir é a agonia de um afogado escalando a laringe desesperadamente, pendurando-se e agredindo os meus órgãos vitais até ser solto...LIVRE! - posso ver as minhas palavras deturpadas com a podridão de um escarro sobre o colo e meu livreto. Aqui só eu falo e só eu escuto. Só eu escrevo no livreto. Meu livreto. Minha redoma. Meu pensar. Meu ser. Meu tudo.