terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Cinco Pedrinhos foram passear...

Vocês se lembram de Pedrinho? (quem não sabe, basta procurar no endereço carolinayephram.blogspot.com a crônica "Pedrinho, o bom cidadão, o homem de bem") Pois bem. A família de Pedrinho foi passear em um shopping na cidade de São Paulo: João Pedro (Pedrinho), José Pedro (Pedrinho), Pedro Henrique (Pedrinho) e Pedro Jr (também conhecido como Pedrinho), e Pedrinho. Mas não só passear, voltaram com as respectivas sacolas de compras. Tênis da Nike, Adidas, Puma, e Pedro Jr. preferiu um Mizuno, mesmo sem saber se era realmente confortável, mas custando R$ 899,00, deveria ser. O problema é que havia uma liminar impedindo um movimento denominado “rolezinho” na entrada do shopping, e jovens estavam sendo barrados. Ao chegar em casa, Pedro Jr indagou ao seu pai, Pedrão:

- Pai, hoje vi que os seguranças filtravam o público para entrar no shopping, no intuito de impedir um tal de “rolezinho”. O que é esse “rolezinho”, pai?

- É um arrastão, filho.

- Um arrastão? Mas ouvi dizer que os jovens estão marcando esse movimento previamente em rede social, com seus perfis públicos. O senhor tem certeza de que é um arrastão, pai?

- Não sei, filho, acho que li na Veja.

- Entendi. Mas pai, no shopping Tucuruvi também teve esse tal “rolezinho” e eu li na internet que não houve furto e nenhum jovem foi detido.

- Hein? Onde?

- No Shopping Tucuruvi, pai.

- Onde fica isso?

- Perto do shopping Center Norte. Bem ali, na zona norte.

- Aquele perto da favela? Aquele cujo Mc Donald's foi campeão de venda graças a uma bendita casquinha que alimenta um público que vai ao shopping com dois reais para gastar? - Pedrão riu com os óculos sutilmente distantes dos olhos, encarando Pedrinho por cima deles, abaixando o jornal.

- Ah, tinha que ser shopping perto de metrô, porque é fácil de chegar. Fazem “rolezinho” onde? Itaquera, Tucuruvi...

- Mas aonde você foi hoje, filho? Não foi no JK Iguatemi?

- Sim, mas lá tinha uma liminar impedindo esses movimentos.

- E como é que fizeram isso?

- Então, não sei, pai, parece que proibiram a entrada de todos os menores de idade.

- Mas seu irmão não foi também?

- Ah, verdade. Mas acho que era porque ele estava acompanhado. Se bem que vi na internet alguns vídeos mostrando pessoas nitidamente maiores de idade dentro do movimento sendo expulsas de estabelecimento por policiais...

- Ah, ninguém é santo, a mídia é sangrenta, filho. Vagabundo tenta te assaltar, aí mete bala em vagabundo e os Direitos Humanos vem em cima.

- Mas todos tem direito constitucional à vida, não tem, pai? E a prática de crime não tira esse direito, né?

- Vagabundo não tem direito. Está vendo o problema? É muito direito pra vagabundo!

- O que é vagabundo, pai? O Zé Pedro tem 32 anos, traz a namorada pra casa todo dia e você continua sustentando meu irmão, eu pelo menos trabalho...

- Vagabundo é quem comete crime, filho.

- Sonegação é crime, pai?

- Sim.

- E aquela vez que o senhor precisou de um advogado?

- Não vamos falar mais nisso. Além do mais, você deveria saber que aqui vigora o princípio da presunção de inocência...

- Mas outro dia ouvi o senhor dizer que por causa disso que o Brasil não vai pra frente. No Mensalão, por exemplo, se julgarmos...

- Pedrinho, onde você tem lido tanta merda? A esquerda caviar te fez uma lavagem cerebral?

- De jeito nenhum, pai. Eu já compartilhei no facebook a opinião de meus colegas dizendo que pra esses defensores de bandido tudo é fascismo, tudo é preconceito racial, que vivemos num sistema capitalista e precisam aceitar isso.

- Mas você leu as matérias, filho?

- Não, pai. O senhor não viu que eu acabei de entrar em casa? Eu cliquei, compartilhei e vim na sala conversar com o senhor.

- É, fascismo já foi exagero demais. Preconceito racial também. Senta aí, tá passando a novela das seis, já já sua mãe chega.

- Onde minha mãe está?

- No Shopping.

- Passeando?

- Não, Pedrinho, quem vai em shopping aguentar aquela multidão só pra passear? Foi comprar um vestido pro casamento da vizinha.

- Mas pai, se esses jovens foram ao shopping e são pobres, reivindicam direitos que ainda não entendi quais são, eles estão brigando porque querem ter o direito de passear, é isso?

- Filho, você já viu a roupa e o jeito desses meninos? Se passa um cidadão desse na rua, que não está assim, bem vestido igual você, o que você pensa?

- Mas o senhor acabou de dizer que isso não tem nada a ver com preconceito racial.

- E quem aqui falou em preto, Pedrinho? Eu não tenho nada contra preto, preto também é gente. O Nilson, o mecânico, é negro, mas é inteligente, tá trabalhando pra pagar a faculdade...

- Pensando bem, pai, o senhor tem razão. Não tem nada de preconceito racial nessa história. É essa maldita esquerda caviar querendo impor o socialismo!

- Olha aí, filho, o Bruno Gagliasso tá bem nesse papel, né?

- Sei lá, não vejo novela, novela é coisa pra alienado. Além disso, o Bruno Gagliasso sempre faz papel de mocinho.

- Lógico, filho, olha a cara dele, com esses olhinhos azuis. Você queria o que? O Bruno Gagliasso dizendo “Dadinho é o caralho, o meu nome é Zé Pequeno, porra!” ?

- Hahahahaha! É verdade...pai, estou com fome, o que tem pra comer?

- Ah, sua mãe deixou na cozinha, vai lá ver.

Pedrinho foi para a cozinha e encontrou a lâmpada queimada.

- Pai, está sem luz.

- Filho, coloque a mão na mesa e procure. Está aí, mais pela direita...

- Pela direita?

- É, filho. Vai, mais, mais pra direita – guiava o pai do sofá, olhando o movimento de Pedrinho na cozinha.

- Não estou encontrando, pai. Não está na esquerda?

- Não, Pedrinho, na direita. Mais pra direita, mais pra direita, direita...

- Pronto. Encontrei. Que nojo! O que é isso?

- Caviar.