domingo, 12 de janeiro de 2014

Amigo na roda, cerveja na mesa, amor de mãe e um violão

Era um equilíbrio perfeito ter a brisa noturna amaciando os pés na areia da praia, para alguns um estilo de vida. Pelo menos para esse cara que eu vi parado num canto, com um violão, um cigarro e um copo de cerveja. Todo santo dia na hora da minha caminhada à beira mar havia rotina: de um lado eu queria quase andar sobre as águas, de outro esse cara fumando, bebendo e tocando alguma música no violão. Dizia ele que tocava, mal sei, nem vi seus dedos calejados. Notei que brincava com um dedilhado sem ritmo algum como se quisesse dizer alguma coisa. Toda tarde me oferecia um copo de cerveja. Já estava farta. 

- Afinal, você não bebe?

- Não todos os dias.

- Beber é legal! - respondeu-me abrindo um sorriso infante, como se um acorde surgisse do fim da última palavra.

- Algumas vezes enjoa.

- O que enjoa é falsidade, é namorada partir coração, é coisa ruim, não beber. Beber é necessário. Amigo na roda, cerveja na mesa, amor de mãe e um violão.

A bem da verdade, eu não conhecia nada do que aquele cara estava dizendo, a única coisa que me era palpável era o seu violão. Ofereceu-me, enfim, um gole de sua cerveja, e tragando o seu cigarro de palha, deu-me outro sorriso. Tinha os olhos já avermelhados. Voz de bêbado não me cala, não, cara. Essa vai ter volta. Vai ter volta.. Repeti estas palavras pegando o rumo de casa, sem saber se eu tinha casa, se eu tinha rumo, se eu tinha vida. Parei na metade do caminho. Olhei para a trás embora os ventos me levassem os cabelos para o sentido contrário. Segurei-os e procurei aquele cara estranho. Sorri de longe para ele, com feitio de bêbada. Sorriu de longe para mim com ar de poeta: com gosto de cerveja no sorriso. Invertemos os papéis. Fitamo-nos. Deixei um pouco de mim, levei um pouco de seu gosto de cerveja, e fui embora. Fomos.