domingo, 5 de janeiro de 2014

Ah! De novo você, janeiro...

Você não pode se atirar desse jeito em meus braços e ficar aí, pendurada em meu pescoço fazendo com que eu te ouça chorar. Quando se atira em mim desse jeito, é como se a vida me desse você de presente para que eu fizesse qualquer coisa. E esse é o perigo, você me entende? Eu não sei se sou a pessoa certa - eu sei que não sou e nunca serei a pessoa certa - para cuidar de você agora. Mas eram só pensamentos que rondavam a minha cabeça como mosquitos no ouvido enquanto passei a abraçar a sua cintura e ver como os seus cabelos claros escureciam no decorrer da chuva atingindo-os. Não posso te abraçar forte, tenho medo de te machucar, você é tão delicada que merecia que eu te desse uma flor  roubada agora, se a chuva não tivesse destruído toda a paisagem. Por favor, não me olhe mais com os olhinhos borrados nem chorando desse jeito, nem com esse rostinho de criança para que seja inevitável cuidar de você. Está chovendo, você vai pegar um resfriado, ou levar embora a minha segunda camisa. Mas as minhas camisas ficam grandes em você, qual a graça de usá-las? (...) Talvez a mesma graça de agarrar o meu pescoço e me trazer para perto de seu cheiro doce num abraço. 
Eu queria soltá-la e pedir que se cuidasse, apenas, porque nem mesmo a chuva caindo na minha cabeça lavava a minha alma já tão desvairada por tantas vidas cometendo atos insanos. Eu queria, mas não era isso que a vida tinha proposto. Eu sei que estava ali para protegê-la de novo de um susto que passou naquela briga na rua, e abraçando-a era a forma de prometer que nada, nada mais a atingiria. Prometi mesmo sem saber se eu ainda estava em condições de prometer alguma coisa. E assim ela me promete um sorriso aberto, um cheiro doce e aquela sensação de bem estar por ter o seu abraço, como se ela soubesse que eu precisava disso, que também estou com a cabeça na lua munida de todos os problemas do mundo. Mas não, não deixarei que saiba. Nunca há de saber que tenho mais marcas na alma do que essa tatuagem que ela adora no meu braço. Quem nasce para cuidar, cuida. E ela, aqui, agora, nasceu para ser cuidada. 
Acariciei os seus cabelos molhados de chuva e vendo espairecer o cenário à nossa volta. Era pequena quando me abraçava, e eu precisava ser grande para carregar o mundo nas costas e tomar mais chuva nos ombros do que ela no seu rostinho de criança. Não me entenda mal se apertá-la mais forte. Eu só não vou deixar a vida te tornar aquilo que ela me tornou nesses últimos meses, que estavam tão terríveis antes de você chegar e me inaugurar um sorriso. Ah, fique bem. Fiquemos bem. Tudo vai ficar bem, pequena, quando a chuva passar, eu prometo.