domingo, 29 de dezembro de 2013

Poema de uma alma enferma

Saiba que o raiar do sol na madrugada
Me é tão certo quanto a meia lua pode ser plena
E que a longitude do horizonte
Nada é diante de todos os planetas que se estendem quando estou de braços abertos.

Não quero dizer, contudo
Que dentre todos os meus reféns, Saturno
Estejam os meus braços abertos pro mundo
Na espera de abrigar-te.
Se há quem quer de me privar da vida
Hei de te privar de mim.

Nem mesmo o timbre da voz com que falo, canto e grito
É desproposital. Nem mesmo a grandeza dos meus cílios
Que constantemente ameaçam acasalar a quem está perto
Janelas da masmorra - pobre de quem sonha pelos meus olhos de cárcere.

É que a vida que é vida me esbarrou na morte
Quem pensa ter os braços maiores que os meus
E assim dispõe, por vezes, da tentativa de abrigar-me.

(Pobre dela se soubesse o que digo
Se lesse menos os poemas 
Do que fosse capaz de ler 
A minha alma que há pouco sangra!
Pobre dela de não vislumbrar de mim
A lenta morte de todos os sentidos
Ante a descoberta 
De que meu baralho já tem cartas marcadas.
Pobre, posto que nunca haverá de saber 
Porque sabe quem sente
E extravasa a mera existência
Sentindo. Pensando.
Muito mais sendo
Do que lendo
Um poema.
E eu sou um poema.)

E no acalentar do meu desassossego na alma
De braços abertos, o meu coração é Marte
E se a finitude que tanto desafia a vida
Tarda a privá-la de mim
No acalento do raiar de outro sol na madrugada
Sou eu que hoje me privo dela. Eu que sei
Porquê fico e quando vou
E vago a me guardar segredo.

(Acendo outro charuto, desvio o olhar pra fumaça 
Despejo cinzas no sofá como se não tivesse um lar 
Como a vida me despeja o espúrio na garganta
E me faz beber até a alma
Tenho a dor do tamanho de uma vida
E canso de ver homens de branco e de jaleco
Reunindo-se a decidir o meu destino
Se são tantos, o que dizem sobre mim?
Se eu que dona da minha vida 
Dela nada sei
Nem sou.)