quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Poema do náufrago (do ócio ao óbito)

Nadou para o vale da morte
Onde a vida era sorte
O desterro lhe abraça
Acenou para um outro norte
Na mão tinha um corte
E na alma mordaça

Eram linhas da vida despidas
Da felicidade
E do seu grande Amor
Na mulher amava uma menina
A sua divindade
E também seu torpor

Era porto seguro no peito
Em que lhe abrigava
Num doce recanto
Era ela a âncora, um pleito
Que se enraivava
Ai do céu e do santo

Beijou sua mulher como quis
E assim foi feliz
Num último segundo
Dentro dela fincou-lhe raiz
E amou-a num triz
Viés de outro mundo

Assim naufragou o seu barco
Levando o seu marco
A sua última poesia
Deixou sua mulher ter o parto
A dor do seu náufrago
Era a casa vazia

Despiu-se da vida e do destino
Cruel desatino
Antagonista que era
Agora, de si assassino
Por um apelo divino
Sofreu pela espera

Nadou, nadou como queria
Sem saber se lhe amava
A mulher que ainda é sua
Foi-se embora, deixou a família
O emprego e a senzala
E uma vida curta

Foi ser exilado
Para ser curado
Do peito de uma dor
De repente que ingrato
O destino do náufrago
A doença era amor

Calou-se, transformou em segredo
Tudo o que doía
Preservou os amigos
Quem via o seu desespero
Duvidava da agonia
Não conhece os motivos

Na última foi visto isolado
Injetaram na veia
Uma suposta cura
O poeta já estava exilado
Seu Natal não tem ceia
Acusaram-lhe de loucura

Estava já sonolento
Com os olhos cerrando
Cortinas da sala de estar
Pobre do seu desalento
Sua família chorando
Porque estava a nadar

Nadou de braçadas com a vida
Do ócio ao ópio
Foi o que era
Fumava, bebia e vivia
Do ócio ao óbito
Trancado na cela

"- Despeço-me."