sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

No sofá até que ela volte

Era metade deusa e metade mulher. Assim era tratada desde a penumbra da madrugada ao espetáculo do raiar do dia. Conduzia a sua beleza pela mão delicada e lapidava a sua pele como se moldasse uma escultura feita de neve. Assim banhava-me a boca de saliva, e bebia de dentro dela fonte eterna de vida. Seu beijo acendia em meu corpo um desejo que conhecia da alma. Com o entrelaçar dos dedos e a maestria de quem regia uma orquestra, deixava o seu pescoço livre para receber meus beijos colocando seus cabelos ao lado; e beijava-lhe o ombro, as costas, a nuca, atrás da orelha, e memorizava as expressões delicadas de seu rosto como o forçar dos olhos fechados e a boca entreaberta, de onde soavam os gemidos como poesia cantada em meus ouvidos. Então, a eterna mania de darmos as mãos de um jeito inesquecível: no ato, a minha mão aberta cobria a dela, e vagarosamente os dedos encontravam uns aos outros entrelaçando-se num gesto quase tão bem ensaiado que acontecia mesmo que estivéssemos de olhos fechados (e acontecia mesmo em pensamento se eu dormisse só na cama). Deitava-me sobre suas costas e segurando firmemente a sua mão tinha-me para dentro dela, na exata perfeição de nossos corpos se encaixando na fusão de nossas almas como se, pela intensidade com que invadia as entranhas de sua pele, tentássemos extrair de nós um novo ser,  traduzido pela comunhão de nossos sentidos e pelo ritmo que nos conduzia entre mãos firmes se segurando e beijos trocados com leveza, porque beijávamos como se os lábios se tocassem com.cuidado para não ferir um ao outro nesse algoz sadio de tesão e desejo vulcânico. Era assim que a conduzia, como se fizesse das curvas do seu corpo a estética perfeita das rimas de um soneto, e molhávamos de nossa libido os corpos como se fluídos nos banhassem a alma. Eram pedaços de nossas almas derretendo sobre a cama e se buscando em completa harmonia. Plenitude do ser, justificada a existência, nos olhos dela eu era capaz de prometer qualquer promessa, a impossível e a inventada. Calmaria, um suspiro brotava da alma. Debaixo das costas o lençol molhado para me fazer lembrar a noite inteira de como era quente em qualquer estação do ano; de como a pele dela era verão na minha. E assim, de imediato, tinha o jeito certo de deitar a cabeça em meu peito e respirar tranquila como a paz de quem dali gozaria a eternidade da vida, ao mesmo tempo sua postura indefesa e em meus braços encolhida, com o rosto me aquecendo a pele lembrava o sono tranquilo de uma criança. E troquei tantas noites de sono para acariciar-lhe com os dedos e deixar que dormisse confortável. Ali, minha. (...)

Hoje estávamos sós de nós. Enquanto escrevo, parece me ganhar a melodia com que amávamos ferozmente na maneira em que era uma posse minha, domada e frágil, e no instinto mais sagaz de fêmea rasgava minha pele e o lençol com as unhas, sem qualquer distinção entre um e outro, igualmente brancos e quentes sobre ela. Entregou-se ali de todas as maneiras em que pudesse senti-la, gemendo com ardor, e nos amávamos com a alma, no viés de gestos animalescos, gemidos meio-gritos faziam ecoar pelo quarto o eu-lírico de nossa poesia, pele riscada de versos de amor. Nunca era diferente: procurava se deitar em meu peito, e era a forma que encontrava de protegê-la de mim, de nós, quando o silêncio nos cantava melodia. Dormia até que o sol acenasse para nós da janela, dando o primeiro sinal de vida da manhã, e ainda ali, entre resquícios de suor e cabelos desajeitados, de braços largados na cama, me via brincar com seus cabelos e cuidar de não fazer nenhum outro movimento para que não acordasse (de um sonho). Noutras vezes acordávamos simplesmente assim, sem saber quando e como dormimos, mas talvez o que fizemos. Grudávamos os corpos sobre o lençol como a cumprir um ritual que precisa repetir o desfecho: havia um jeito único de deitar-se em meu peito. 

                                                                          (E não nos amávamos mais, há muito tempo, pode ser que faça um mês ou faça um dia, me confundo com a dor da falta dela. Hoje mesmo, num sofá qualquer, sonolenta, pediu para deitar-se em meu peito, e assim cedemos à paz de enlaçarmos a pele e a alma por baixo de vestimentas. Dormimos, sonhei, sonhamos. Quando meus olhos se abriram num indagar da companhia, temi pensar sobre isto: simplesmente tinha o seu rostinho colado em meu peito, o perfume dos seus cabelos invadindo as narinas e, ao levantar-se como quem ainda sonha mas não dorme, deixou a minha camisa aquecida. Olhou-me dentro dos olhos como se guardasse na retina dois bichos vivos e prestes a atacar. Fui presa. Lançou-me dos cílios algemas, como os braços e as coxas me prendiam na cama. Levantei-me e fui ao banheiro, então confesso, leitor, encarei-me no espelho, lavei o rosto e perguntei se era verdade, porque toda vez que nos amávamos, terminávamos no mesmo ato, na mesma postura, e se procurou com o rosto abrigar-se em meus braços, talvez tenhamos nos amado e nos dado a loucura de sentir e ser num único ato, com a beleza e o prestígio de um teatro em cortinas fechadas, onde os deuses e a natureza morta da sala morreriam de inveja pela nossa sintonia. Coloquei a mão na maçaneta e pensei duas vezes se ela estava realmente me esperando no sofá, se ainda se vestia, se encontraria seus cabelos negros e tão longos espalhados sobre a cama - não era cama, era sofá, por que raios eu insistia? Tomei coragem, abri a porta. Em poucos passos já estava perto dela, e via seus olhinhos cansados como quem estava com sono, com o sono bom de tantas noites em que vivemos tantos anos e tantas vidas. Minha camisa estava quente no lado direito do peito, onde ela dormia. Talvez fosse normal, eu vivia reclamando do calor. Foi embora, faz algumas horas. Eu que ainda escrevo neste sofá como se tudo tivesse acabado de acontecer. Roteirista de minha própria agonia, procuro fios de cabelo dela, sinto se o sofá está molhado ou quente e guarda um pouco de nós. Está frio, incrédulo. Tomo um gole de aguardente, vou esvair em sangue - vivo, ainda quente. Teríamos nos amado e caído ao cansaço do sono, naquele sofá, publicamente? Ou então, por que ela dormiria em meus braços se não estava suficientemente cansada para isso? Provocou-me no corpo a torpeza. Fui fiel aos meus sentidos. (...) Outro gole. Nem sei se ela havia mesmo me visitado, nem se nos amamos hoje. Não me interessava saber. Tinha medo de descobrir a verdade.)

Nem mesmo saí do sofá - repeti cinco vezes que daqui não saio, acabando com a dose de bebida. Com os olhos marejados e a promessa cumprida, criei raízes. Daqui não saio. Um dia ela volta...