segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Há um sério risco de me perder para seus olhos

Outro dia entramos na capela, rezei e não sei o que agradecia. Cuidou de sentar-se perto de mim ajeitando as coxas como se fossem continuidade da pele minha, dividimos o jeans e as veias. Sentou-se ao meu lado direito. Houve um estrondo lá fora, e quando olhei para a porta que também ficava ao meu lado direito - é por isso que escrevo - olhava para mim, com aquilo que não era olhar, era aquilo. A começar seus olhos pronunciavam outra língua, escreviam poesia e entoavam cantos de sabiá. Da íris escorregavam cachoeiras, e se teimasse em fitar-lhe a pupila, já era escrava do seu jeito de olhar. Eu que nunca me atentei às minúcias de vaidade, posso arriscar a dizer que tinham o contorno preto, feito a lápis, que ela ousaria dizer que fez e que se produziu, mas quando olhava tão de perto para ela, tinha certeza de que não se pintava a lápis, mas que fora traçada e desenhada a régua em cada detalhe, e colorida também. Foram dois ou três segundos em que olhei em seus olhos, e bastava para que eu me lembrasse por uma vida inteira. Ali, por ela, me apaixonei de novo, conhecendo dos seus olhos novos olhos e formas de expressão que surpreendiam-me agradavelmente a cada dia - eu amava três mulheres: ela, e seus olhos. Os olhos dela tinham vida própria e um caso comigo, um caso de amor, de sexo, sei lá o que faziam. Há um sério risco de que me perca para seus olhos, bonitos que são. Os olhos dela me matavam de beleza. Ah, se piscar...se ela piscar vai ser um pecado.