quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A história do amor bandido contada pelo bandido que falava de amor

Dona Edna sempre dizia "Vai com calma, menino, esse teu jeito abrutalhado!" - exclamava com sotaque típico de moradora do interior, sem que precisasse concluir a frase, dado o tom de indignação e revolta. Assim Samuel corria para trazer as verduras que sua mãe pedia, contando as moedas para ver se conseguia comprar um refrigerante. Noutro dia de bermuda e camiseta, hoje já de calça jeans, camisa social e sapato, na melhor tentativa de enquadrar-se no padrão bom moço do vulgo século da aparência. Mas era mesmo tentativa: liberado do cárcere, Samuel calçou os sapatos que usava no seu primeiro dia de cumprimento de pena, e a camisa branca nitidamente amassada com as mangas dobradas nos ombros para quem não fazia questão de esconder-se de cicatriz nem tatuagem, e a calça que Dona Edna trouxe com todo cuidado e dedicação para seu filho. Disse, de novo "Vai com calma, menino..." porque conhecia o jeito atropelado de ser. Não era à toa que, no seu bairro, Samuel sempre era o artilheiro das partidas de futebol - como se os pés fossem donos da bola, atropelava o tempo, o apito do juiz e os zagueiros, simplesmente porque sabia o que fazer. "Tá dentro da área, driblou o zagueiro, arriscou de longe e é gol!".GOL! - pensou Samuel na primeira brisa que levantou seus cabelos molhados de suor quando se viu fora do cárcere. Tinha a vida como uma partida de futebol, estava com a bola nos pés, e sabia, Samuel sempre sabia o que tinha que ser feito. Tomou o primeiro táxi e bateu na porta de Dolores. Dolores dispensava explicações, Samuel que pela inteligência e articulação já mandara no presídio, descrevia a sua mulher como o grande amor da sua vida. E Dolores não era mulher, era sua. "Minha mulher" - dizia, com o que não se sabia se era posse ou orgulho dela. Ah! E bandido lá sabe falar de amor? Outro dia perguntaram se Dolores realmente existia, se iria vê-lo. Aí o bandido abaixava a cabeça, desolado, brincava com os diversos anéis entre os dedos e não dizia nada. Quem ia era Valquíria, quem não se pode descrever sem falar nos belos olhos de esmeralda, porém amendoados, tão pequenos e ainda menores quando sorria - o que dava a Valquíria um ar de mistério, nunca se sabia exatamente para onde olhava, nem o que queria. E o que queria, Samuel tinha. Dolores sabia. Incomodava-se com isso, mas nunca preocupou-se em levar uma trouxinha de café da tarde como Valquíria fazia todos os dias. Dolores era assim, parecia ter nascido com pés cravados em sapatos de salto, e deles era verdadeiramente equilibrista. Era capaz de correr sem cair, enquanto Samuel tropeçava até de chinelos. Samuel tropeçava na vida! Dona Edna dizia a Dolores que era um bom menino, mas "Tem esse jeito assim, abrutalhado..." E o abrutalhado também ama, porra! - Pensou Samuel, enquanto tirava do táxi uma mochila e subia as escadas para o apartamento de Dolores. Sentiu o coração dilacerar o peito de tanto que acelerava, não deu tempo de pensar em bater na porta, esmurrou. "Aqui tem campainha" - fechou os olhos e colocou a mão sobre o peito como quem tenta acalmar o coração, era a voz de sua mulher, estava já tão perto. Ao abrir a porta, Dolores entregou-se por completa: a boca entreaberta numa expressão de surpresa e os olhos com seus longos cílios de moldura fitaram Samuel até sua alma. Este, menino artilheiro, bandido abrutalhado, não se conteve:

- Dolores, olha, eu preciso falar com você. Eu preciso te contar o que está acontecendo, eu preciso te dizer como passei todos esses dias, eu preciso que você me ouça e...

- Olha, Samuel, não vai dar. - disse com certo orgulho em seu ar arrogante, empinando o nariz e esboçando um sorriso de irônica satisfação - Não vai dar, não está vendo? Estou de malas prontas...

- Malas? Que porra de malas, Dolores, caralho! Eu preciso conversar com você, você tem que me ouvir, você precisa saber o que está acontecendo, você...

- Samuel, chega! Tudo sempre foi assim, com esse seu jeito bruto, mandando e desmandando em mim. É tudo na sua hora, tudo como quer. Eu não tenho tempo pra você agora, um dia eu tive.

Mais ainda dilacerou o peito quando Samuel avistou na porta entreaberta na qual Dolores se apoiava que estava o seu melhor amigo, sentado no sofá, com típica cara de luto. Dizia que Samuel era problema, um insano, que qualquer hora quebraria a casa inteira. Protegeu Dolores e tirou de Samuel algo ainda pior do que a liberdade que lhe foi roubada: a chance. A oportunidade. O direito de dizer de si, de ser ouvido, e não somente julgado. Dolores era juíza, e o matrimônio inquisitório. Samuel esbanjava que Dolores era sua, sempre sua, mas no fundo era Dolores quem mandava em Samuel, e Samuel mandava no mundo.

- Não vai mesmo querer me ouvir? Vai negar uma ajuda sabendo o quanto eu preciso? - disse Samuel, enquanto escorregava as mãos pelos cabelos até a nuca, estes ainda mais desajeitados depois dos tempos de cárcere, quando se fez aparente um corte no braço.

- O que é isso? Se meteu em confusão de novo, Samuel...olha, eu não aguento mais, eu não aguento...

- Espera! - dessa vez Samuel se pôs para dentro do apartamento, bateu a porta e fitou Dolores com ódio, que na verdade era desespero. Bufava. - Vai me ouvir e vai ser agora! Não matei ninguém, porra! Eu preciso que você, pelo amor de Deus, acredite em mim, Dolores...

Não eram casal, eram contraste.. Dolores tinha a delicadeza das princesas de fábula, e Samuel representava uma contradição: nada tinha de príncipe, era o vilão que raptava a princesa. Nem mesmo Dona Edna defendia o filho quando a velha se metia nas brigas de casal.  Quando bateu a porta, Dolores ironizou a necessidade de Samuel ser ouvido naquele instante. Foi firme ao estancar no peito do bandido um punhal de sua severa mania de amá-lo sem deixar parecer que é amor:

- Não é nada importante, e eu não vou poder te ouvir. Está decidido assim.

Samuel calou-se, calou-se fitando a sua amada nos olhos com olhar de menino, diziam que mesmo com seu jeito todo abrutalhado conservava os olhos de criança. No braço esquerdo que permaneceu o tempo todo atrás do corpo, havia rosas vermelhas, da cor da paixão. Samuel foi embora sem que fossem vistas. Foi Dolores quem fechou a porta, o que não sabia é que era mesmo a sua última chance.

Sobreviveu ao desprezo de Dolores, ao suor na testa e ao sol do fim da tarde não mais dourado que os cabelos de Valquíria, que acenava na outra esquina. "Que raios essa vadia está querendo agora? Talvez eu pudesse ter jogado as flores na cara de Dolores, rasgado a carta de amor na frente dela, ou deveria tê-la jogado na parede como fiz da outra vez e ter arrancado a sua roupa e tê-la amado ali mesmo, já que seria a última vez." - pensou alto, azarado que era. Foi quando se aproximou Valquíria:

- Para quem são essas flores? E essa carta? Escrevendo cartas de amor, Samuel? - ironizou.

Samuel pôde somente encará-la com a boca fechada e expressão de insatisfeito. Valquíria insistiu:

- Se ela não quer, eu quero. Quem te ama sou eu, Samuel. 

Dona Edna? Nunca mais a vi, também deixei de ir na feira. Da janela de casa avistava Samuel e Valquíria nos bares. Dançavam, cantarolavam, pagodeavam, Samuel de braços abertos dominava o samba nos pés e Valquíria a arte de seduzi-lo a todo custo. Mas não vía os dois juntos. E isso foi em uma tarde de dezembro qualquer, mas Samuel, sentenciado, logo estava algemado de novo e fora levado ao cárcere. Ouviu dos companheiros de cela que era um tolo, um babaca. Que Valquíria que era mulher. E ouvia ainda mais piadas quando jurava que era inocente. Era inocente! - assim pensava todas as noites quando era o único acordado na cela, escravo da insônia. Recordou que a última vez que dormira profundamente fora na cama onde passara as noites com Dolores, a mulher, não sua. Deveria tê-lo ouvido, deveria ter acreditado, para que terminasse a história de prìncipe e princesa com final feliz. Espera. Quem falou em príncipe? Samuel era anjo, mas anjo do cárcere. Abrutalhado que era, Samuel merecia ser julgado só pela sua forma de falar: gesticulando exacerbado, era uma das queixas de Dolores, mas também a brutalidade, a impulsão constante, a mente psicótica de um gênio incompreendido. Dela, Samuel nunca se queixara. Dolores vivia reclamando que Samuel sempre chegava na hora errada, mas um dia desses exclamou "Ainda bem que você estava vindo!" quando, parada na porta do restaurante, sentiu que ia ser abordada por um bandido na rua. Mas não era Samuel o bandido?

Samuel preferiu acreditar que Dolores fosse mais feliz assim, pois não precisava vê-lo condenado em seus últimos dias. Outro dia avistei Samuel, infeliz, embriagado, com a testa sangrando, provavelmente tinha brigado na rua. A polícia logo prenderia Samuel de novo. Antes, gritava "Dolores, Dolores, me escuta!". Dizia que era inocente. Que precisava de um bom advogado. Mas já se foram alguns anos, hoje, Samuel diz que tudo o que precisa é ser compreendido. Outro dia ouviu no cárcere:

- Tá mal, hein malandro? Veio aqui acreditando em amor, saiu daqui acreditando em mulher, e agora volta querendo que eu acredite em inocência...

Essa era a história de Samuel. Não sei ao certo como terminou. Outro dia avistei pétalas de rosas pisoteadas na porta da casa de Dolores. Se Dolores amasse Samuel, deveria ter nele acreditado. O amor a tudo espera e tudo cuida.

Ninguém mais soube do seu paradeiro, se casou com Valquíria, se teve mais filhos, se foi morto na cadeia, se estava solto e procurando emprego, se virou um viciado como era comum após os tempos de cárcere. Mas o mais curioso é que a carta que Samuel escreveu nunca foi lida por Dolores, nem sequer foi entregue. O que será que teria acontecido se Dolores tivesse lhe ouvido, se tivesse recebido as flores, se tivesse deixado Samuel mostrar que lhe trazia flores e uma carta? (...) Nunca saberemos, ou poderíamos até imaginar, mas há de ser tarde. Há de ser tarde. Dona Edna sabia do que eu estava falando. Samuel era menino; abrutalhada mesmo era a vida, abrutalhado mesmo era o amor.