segunda-feira, 17 de junho de 2013

Salada de frutas e o sentido do amor

Vou contar a história de uma família. Naquele estabelecimento adentrei sem propósitos, tal como o parto, como vem o feto à vida. Na última mesa a menina mestiça, quase na saída, ao lado de um homem mais velho. A sociedade deduz assim: era o pai de família. Pai porque lembra poder familiar, poder lembra igreja, igreja lembra instituição, instituição lembra casamento, e casamento lembra família. E família lembra amor, e era essa a história que eu queria contar. 
O homem desejava aqueles corações que o estabelecimento cede para pregar na parede com recados de amor. Jefferson não, era mais interessante. Ocupava espaço, mostrava-se tanto quanto eu fugia de mim mesma, no dia do meu aniversário, para não me encontrar. Falava alto, risos estrondosos que podiam esconder uma tristeza na face que insistia em transbordar no meu copo. Cada gole um infortúnio. Mais açúcar, dezoito gotas de adoçante (mais amor, por favor!) - fica mais fácil e eu engulo a vida. 
(...)
Acabo de ver que a família também tinha uma criança, não menos típica: cheirava a doce, tinha franja curta e vestia rosa porque era menina. Vou chamá-la de Mariana, porque é o nome de minha prima, de outra amiga e de tantas outras que começam com a revolta do mar e terminam rimando com drama. Marianas...Marianas são divertidas, mas ali estava Jefferson com dois "f", alto, forte, acima do peso - diriam que esbanjava saúde - camiseta preta e óculos escuros pendurados junto a uma corrente dourada e um jeito de olhar que disputava-lhe o brilho. A senhora trajava um chapéu escuro. Um timbre forte como a ópera que atinge cristais, mas não chamava a atenção porque falava alto. Chamava a atenção porque eu era só, apenas. Era o dia do meu aniversário, mas antes que Jefferson fosse embora eu queria parabenizá-lo por ter entendido a vida.
Jefferson aproximou-se, e sua áurea era positiva. Eu acreditava em encontros e propósitos, e sem propósito estava aqui, mas não podia brindar o acaso. A senhora levantou e restou presa a lã do casaco enfeitado na cadeira laranja. Seu filho reclamava - filhos ingratos, como Deus chamou-me...-, pois a conta estava paga e ela queria mais uma salada de frutas. Jefferson, o nome que eu dei ao rapaz que era feliz com dois "f'", sorriu e disse que levariam ao sobrinho. Eu me desejei apenas um feliz aniversário, e cortando um pedaço desse coração recheado de doce de leite, faço um pedido: se me ama, guarde para mim pedacinhos de frutas picados em um copo de plástico. Não desejo coisa mais simples; não há, para mim, coisa mais sincera do que melão, abacaxi, maçã, banana e morango, todos misturados para eu sentir o doce; para saber que tão simples é o amor, mas tão simples, que cabe até em pedaços de fruta. E no fim eu acho que contei a minha história.