terça-feira, 18 de junho de 2013

Dos olhos tristes e confessos

Venha mais perto e me escute: eu tenho os olhos mais tristes que você já viu na vida; mas também os mais cegos, os mais cansados. Eu tenho os olhos mais castanhos que refletem tornados, multidões e faíscas das erupções que emergem das veias, anunciando uma explosão constante, disfarçada a todo tempo num piscar de olhos. Eu ando com os olhos mais tristes, mas também os mais cansados de ouvir você dizer o que eu sou ou o que preciso ser, sem parecer importar-se com as falhas que eu cometo tentando ser alguma coisa, típico de quem não tem nada, de quem não é nada, não quer nada...Eu quis me esconder. Meter a cara naquelas páginas de doze mil livros empoeirados e regrados que só...Código Civil, Código Penal, Código da vida, Código do amor. Eu tinha regras pra tudo! E eu machuco e assusto as pessoas, mesmo aquelas que não sabem que meus olhos são tristes. É que eu vivo dizendo que eu gosto de leis e de sentidos, que eu penso mais do que sinto, ou que eu não sinto, e se sinto, não falo, e também que não durmo e não como. Há, por isso, quem creia até que eu não respire também. Olha, você aí, você pode acreditar nessas pessoas, até mesmo acreditar que eu seja alguma coisa. Mas se você soubesse que meus olhos não são tão castanhos, mas cegos e tristes, loucos e entorpecidos, desvirtuados e chorosos que você nem imagina,  talvez nem precisasse ler isso até o fim. As pessoas se queixam da minha frieza e brutalidade, mas não sabem com que doçura e expectativa eu tocava os livros, a flauta, o violão e o rosto que eu quisesse em pensamento. É uma questão de sentir, e sentir eu sei, vocês sentem bem melhor do que eu. Pensar, ler, olhar - com os olhos tristes, porém confessos - não. Vocês não sabem nada disso. Eu sei.