sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A cura

Tenho sido uma boa companhia, uma bela sombra de mim. Tenho deixado pegadas ao longo de estradas de terra e também de algumas de asfalto para sinalizar que estou viva. Faço visitas rotineiras (e não propositais) aos médicos, porque me dói a cabeça, a ponta dos dedos, os fios de cabelo e um canto da alma. Os diagnósticos são sempre um mistério: examinam a cabeça, o corpo, o coração. Comecei a gostar dessa rotina - tornei-me amiga carente desses homens de branco. A cama do hospital me parecia tranquila, proporcionava o sono mais aconchegante, porque eu tinha certeza de que por mais hostil que fosse a sua chegada, bastava acordar com qualquer fadiga que eu teria a chance de pedir socorro por alguém que me escutasse, e que corresse até mim. Algumas enfermeiras ali me conheciam, outros médicos não, eram novos, e eu insistia em fazer amizade. Passeando pelos corredores, via gente cedendo o próprio sangue para aqueles tubinhos infernais e fétidos de um hospital - desde criança eu via dessa forma. Gente tão estúpida que, sangrando para cima, ousava em ter a expressão mais comum de um fim de tarde de domingo. Por vezes eu queria cuspir naquela gente escrota que não sabia o que era viver sendo um bom paciente. Das melhores doenças que tive, uma enxaqueca me agradou muito, quando a médica disse "Cuide-se. Vá com Deus." Parecia tão doce, singelo e delicado, que alguma presença me seguia ali, amparando-me em mãos ternas. E por falar nessa raça de jaleco toda esquisita e supostamente amante das razões, é costumeiro que a minha psicóloga pergunte como estou. Em um dia desses, retruquei-lhe: "Hoje quem me responde as perguntas é você." e vi os seus olhos engajados em tamanha surpresa, seguidamente de um riso - um riso de desespero? Eu nunca fui tão engraçada assim, porque comédia é diferente de tragédia. Ela insiste em buscar porquês para tudo, enquanto eu fico no pra que de tudo isso. Ela, como os homens de branco, é uma moça de bem, que prefere a razão e o equilíbrio de corpo e espírito. Eu não - hoje eu visto preto, e me chamem de pedaço de carne, desalmada, fantasiada do avesso. Quem não faz perguntas não precisa de respostas.