quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Mais que a vida!

Com a fronte dourada e pelo sol erguida
Beijou-me a donzela no primeiro trago
que gentil co'as mãos de margarida
Acatou-me na face um infinito estrago

Deixei-a por um instante derramada
Sob as cortinas da paisagem entardecida
Que visitei certo dia pela estrada
Enquanto o peito angustiado pela vida

(Alcancei-a nessa hora) - que ironia!
- Estarem nossas almas tão espelhadas
Na ternura desses olhos que dizia
Com a voz entorpecida que me amavas!

Mas a donzela como o sonho já partia
Porque o sol anunciava uma manhã
E pelo calor ingrato deste afã
À distância ela ainda me sorria...

Sorria não porque feliz estava
Assim prefiro, pois, acreditar
Sorria porque tanto amava
A quem nunca iria lhe deixar

E num gesto nobre preferia
Que dela lembrasse assim, sorrindo
E que não chorasse por estar partindo
Mas alegre fosse porque a conhecia

E essa amarga fábula foi finita
Como a alegria de todo doente (apaixonado!)
Que ama a donzela mais que a vida
E que no fim por ela é derrotado...

Partiu o seu barco para a lua cheia
Partia a donzela para o mar profundo
Talvez porque fosse só uma sereia
Que criei para viver em meu mundo!

A sereia agora adormece
Descansa perfeita o corpo desenhado
E com um rude suspiro se despede
Dos sonhos deste pobre apaixonado...