sábado, 15 de dezembro de 2012

O velho japonês

Sentei na mesa do restaurante para almoçar, mas sigo impaciente. Há um senhor na minha frente que me irrita muito. A começar, é japonês. Japoneses são calmos e donos daquela cultura que faz tudo bonito, tudo tranquilo, tão devagar que conseguem tempo de ser educados. Sua mesa é farta, aposto que um contraste do seu provável peito vazio - uma pessoa calma não chora, não sofre, não ama. Saboreia uns pães temperados junto a um caldo verde. Encarei-o ríspida e fui ignorada. O velho japonês continua calmo, e a tigela cheia, como era lento até para comer! Talvez quisesse degustar de outro deleite que só um vagaroso tempo conhece. Ops! Desvio o olhar agora. O homem notou que eu o observava enquanto escrevia. Mal sabe que será exposto, que todos saberão quem era e que gostava de sopa com pães. Nem metade daquela tigela foi embora ainda. E é frio, calmo, calculista como a uniformidade de seus finos cabelos branquinhos penteados para trás em um esforço de elegância. Comecei a gostar daquele homem cuja calma tanto me irritava. Hoje mesmo começarei pela sopa, mas sem me preocupar se acabará amanhã ou com o depois, se vai esfriar, se alguém me encara em outra mesa. Eu queria a sua calma, a sua vestimenta dotada de paciência, e se possível alguns cabelos brancos de sua experiência para saber lidar com a vida. Ah, já escrevi isso tudo e ele ainda não acabou aquela sopa nojenta e fria, que tanto aprecia como se fosse aquele momento de refeição uma eternidade só. Estranho deleite!