quinta-feira, 29 de novembro de 2012


Lua minguante. Careci de uma energia exterior. Dobras as mangas da camisa social era pouco para sentir o vento me tocar de uma forma diferente. (…) Fui em busca de um artifício artesanal feito por aqueles nômades que frequentam as ruas – desses que vocês querem distância. Os donos da maior casa que a metrópole já conheceu. Tinham sob os pés os passos de toda essa gente apressada, cansada, despercebida e pouco importante aos seus olhos. Gente de preço, não de apreço. Gente de outros valores. O teto à noite não era vazio, nem escuro, mas recebia a luz radiante, e quando não, era presentado pelas estrelas. Eram estrelas de verdade, não essas que compramos para que brilhem ilusoriamente no quarto das crianças. Compartilhei com ele o que comia, para provar o seu mundo, entender o que fazia aquele projeto de cidadão comum – como denunciavam os olhos dos bons burgueses ao redor. Trocamos presentes. Ele decidiu mostrar sua arte, e criar uma tornozeleira na hora. Eu não uso tornozeleiras, mas eu usaria, daí em diante, o seu conhecimento. Questionei a dificuldade, mostrei o quanto, diante dele, era indiferente e incapaz. Humildemente, o nômade mostrava como improvisava com os próprios pés ou o poste sua maneira de crias objetos e acessórios. Enquanto realizava as suas manobras, contou-me algumas histórias que provaram para mim o quanto eu era apenas uma recém-nascida. Certa vez, tombou de uma canoa, desafiado pelos amigos, e foi assim que aprendeu a nadar, ou foi assim que descobriu que sabia. Disse-me que às vezes era necessário um tombo da canoa para sabermos do que somos capazes, mesmo que pensando o contrário. Eu estava encolhendo diante daquele ser que tanto enobrecia, com um olhar que, embora já entorpecido, era convicto de que estava vivo de verdade. Desejei ao homem toda felicidade e luz, como que querendo que essas palavras surtissem efeitos físicos, para que nunca lhe faltasse nada. E quem disse que faltava alguma coisa? O amor ao ser era presente. Foi quando levantou-se e disse que eu era gentil, algo que deveria ser regra nessa sociedade patética de castelos de papelão. Estendeu a mão em um gesto sutil e fraterno. Não foi preciso coragem para apertar-lhe aquela mão, que apresentava algumas sujeiras, longe de ser suja como as mãos dos diabos engravatados com quem convivo. Era uma mão leve, de áurea boa. De repente, encontrei-me querendo integrar aquele contexto, resgatar experiências que nem mesmo em imaginação seria capaz de vivenciar com tamanha audácia. Mas o relógio de um cidadão comum apitava e denunciava meus compromissos: a terapia, para saber quem eu era ou como lidar com isso, já que eu não tropeçava da canoa, nem assistia o céu aberto ao acordar. Era uma formiga na selva. Insignificante. Acovardei-me naquele instante em perceber que prometera a mim mesma que, um dia – e somente em um dia – terei a coragem. Por enquanto não, não era de minha natureza sair por aí virando barcos, ou navegar sem direção. Eu nem sei se seria feliz do outro lado da vida como aquele homem. O que sabia é que só de vê-lo com a necessidade de uma atenção que ninguém mais iria ceder, eu estava feliz em também ser vista. E, no âmago, a felicidade que procuramos mora aqui dentro, esperando pelas coisas simples que dependem mais de detalhes do que de nossos esforços. Talvez a glória seja apenas uma ingênua simplicidade, e os sonhos, quando isso for descoberto, estarão mais próximos de existirem, mais próximos de serem sonhados.