sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Último romance

Voltou com flores para casa. Folhas de outono, secas e mórbidas, pisoteadas por um salto alto.
- Bom dia! Sabe me dizer se ela melhorou? 
- Ela não estava bem?
- Nada, era só uma gripe. Eu é que preciso vê-la agora, nesse instante, estou morrendo de saudade, espero que esteja aqui...
Disse-lhe assim com os olhos ternos, estrelados, cintilantes. Flores pela calçada, um buquê imaginário preso em seu braço revestia a sua áurea apaixonada. Há dois dias, havia visto uma loja de móveis, brincou de planejar a sala. Procurou o que rendesse aquela rainha, algo entre o luxuoso e o aconchegante, uma poltrona para apreciar seus livros, uma cama enorme para que deitasse de forma mais confortável possível após seus dias cheios e perturbados e recebesse uma massagem, aquela que fazia pela manhã, sem técnicas especiais, apenas com mãos e um coração cheio de amor. O brilho de alianças na vitrine fez com que perdesse a hora do trabalho. Prateadas, detalhe dourado era tudo o que queria. Mas procurou a mais simples, porque era assim que ela gostava. Gostava das coisas mais simples que se apaixonou por quem tanto atropelava as palavras, os gestos, as atitudes, perturbava-lhe na sala e interrompia seus filmes cultos e de suspense por mero prazer e distração. Parecia que realmente ela gostava. Parecia. Perpetuamente naquela sala escurecida estavam agora, com milhares de cadeiras vazias, que não mais estavam ocupadas porque esse romance não teria público. O teatro chegara ao fim.
- Eu não sei mais...se é isso que eu quero.
Há muito mais que ela não sabia. Não sabia que, naquele instante, atirou nesse peito rasgado sete vezes, marcou profundamente a vida de alguém que foi capaz de trocar a dedicação de seu esporte predileto com que tanto sonha para uma vida profissional e dedicada – matrimonial, idealizava. E certamente os casamentos ocorrem nas igrejas porque são milagres. Milagres de quem ama, de quem é amado, e quem acima disso consegue ser feliz. Ela não sabia também que havia um buquê de rosas naquelas costas, por trás de quem não resistiu a engolir o choro. Quem viu em seus olhos desaguar todas as cachoeiras e insistir que era só um cisco. Isso não foi nada. Pelo resto do dia, chorou não só para si, mas para que todos vissem. Encorajou-se a sentir e a chorar, e foi chorando pela rua, pelas praças, no banho em casa, na cama e com o violão, e chora até agora. Vai chorar por mais uns dias, porque chorar foi tudo o que sobrou para sentir o resto desse amor que vai valer a vida inteira. Chorou, mas sorriu para ela. O que queria, era que ela fosse feliz. O que sentia, era muito amor. O que não sabia era que ela não gostava de flores...