sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Três vezes você

Não que eu deveria escrever, mas mesmo assim escrevo. Essa teimosia é a que me obriga a viver, com a mesma instabilidade de uma vela acesa onde se pode ventar. Gosto do centro da cidade, de pessoas e do meu ócio. O que não gosto é da obrigação de ter que me suportar sempre. Imagino-me partindo para longa viagem, embarque internacional, câmera fotográfica pendurada no pescoço, camisa brega - um detalhe diferenciado. Imagino qualquer situação em que eu esteja indo, indo para longe - bem longe de mim, dos pensamentos que são meus próprios vilões. Tenho uma gatinha, que fica ainda mais linda quando senta na janela, beirando a cor cristalizada de seus olhos azuis, além da paz que transmite o contorno branco de seus pêlos - é branca como a nuvem, e suave como a neve, uma áurea boa típica dos animais. Chama-se Luna. E a Luna recheia aqueles doces olhinhos azuis de tanto anseio ao apreciar a rua, e algumas vezes faz isso na janela do quarto. Preocupo-me. Hoje mesmo sentei com ela, e disse: "Eu mostraria todo o mundo afora para você, mas ele é cruel, arriscado, incompreensivo." Não sei se ela concordou, nem sei o que achou disso, mas saiu de fininho brincando com a bola. Como a Luna, eu também olho a paisagem lá fora. Meus olhos chegam a dimensionar tão mais, e tamanha me é a perspicácia de atingir cenários que tiro fotografias com os próprios olhares - em tons de sépia, ou preto e branco. Obscuro e sinistro - como é o mundo lá fora, a Luna e eu sabemos. Um certo dia, você sentará comigo para dizer "Eu mostraria todo o mundo afora a você, mas ele é cruel, arriscado e incompreensivo.", e quando eu olhar para você, vou procurar entender onde estão essas três palavras, e vou repetir em orgulhosa réplica: "Eu não mais olharei o mundo afora. Olharei para você. E quando precisar de generosidade, sem riscos, e de um olhar que me entenda, não restará dúvida: você, você, você."