domingo, 29 de maio de 2011

Queria te perguntar uma coisa. Daquele jeito ríspido, sem jeito, queria saber se eu mereço essa saudade. Se era para eu estar aqui em plena véspera de segunda-feira - no terror das noites do domingo - pensando que você sente frio. Se eu precisava sentir o formigar as mãos e até meus tantos anéis pela falta que fazem seus cabelos como a queda d'água, se eu queria me apegar em outro luar na madrugada que não a profundidade tenebrosa dos seus olhos invasivos. É verdade, um moço queria me vender um porta-retrato (e sim, eu acabei comprando outro anel), mas deveria ter comprado. Colocaria de moldura alguma seda que se compare a maciez dos seus cabelos e tentaria sugar a sua imagem, cravar na minha memória a força de erupção com que seus olhos vêm ao meu encontro, como um tornado, um delírio, uma convulsão, prestes a explodir. E sem ardor, entram, deixam tudo fora do lugar. Penetrantes, tão frios e sérios (lindos, e lindos outra vez) que juro, queria tê-los de perto agora, como um quadro da sala, como a capa de um livro, como estampa do lençol. Eu mereço mesmo essa saudade? Já vou dormir, e chego a ficar tão encolhida que pareço estrangular de raiva esse vazio por me lembrar que não te abraço, não te alcanço, não te esquento, não mereço essa saudade...