sexta-feira, 8 de abril de 2011

O marinheiro

Talvez eu quisesse conter um surto, uma agonia salgada como as primeiras ondas da maré cheia batendo na porta de casa. Viver sem fé não é fácil. Esquecer-se do sinal da cruz não é fácil, marinheiro. É viver um naufrágio e soterrar os pés em algum furo do barco, sem enxergar qualquer luz acesa, sem avistar ilha deserta, sem que haja sinais de vida.
Você, você deveria saber disso. Saber que essa fé pode estar transcrita nos seus braços seguros e firmes. Penso que um dia vou te segurar pela camisa e puxar tão forte que você vai ter que me entender. Vai ter que aprender a ler meus olhos quando irradiarem relâmpagos contra os seus. Vai perder a pose, dizer outra vez que te deixo frágil. Vai me fazer enxergar algumas estrelas lá no céu que cerca o mar, no horizonte onde a gente se encontra (onde há de se encontrar). Pelo menos assim eu não percebo, e a minha vida segue indo embora pela água que invadiu o barco por aquele furo de fé despedaçada...