segunda-feira, 28 de março de 2011

Coração infante

Eu sei que é muito cedo para dizer essas coisas. Mas quem é que diz que é muito cedo para dizer essas coisas? O coração não escolhe de acordo com a hora, nem com o tempo. Ah, eu também não sei como o coração escolhe, mas se soubesse, podia ter evitado nosso encontro. Não que você me faça mal, mas é que você tem feito bem demais para mim. Ontem mesmo minha mãe queria trazer para casa uma gatinha branca de olhos azuis, e eu disse para não trazê-la, pois iria querer para sempre. Ela respondeu "Depois levarei embora." Engraçado. É exatamente como a vida faz comigo.

Está bem, seus olhos não são azuis como os dela, nem os pêlos são brancos - mas por tantas vezes senti meus pés distantes do chão por infiltrar-me nos teus olhos profundamente escuros, como se procurasse dentro deles um ponto de luz, uma cor diferente. Como se sonhando eles falassem comigo, reagissem a mim, como se aquele olhar saísse da minha boca para te dar um beijo. Eu te beijei com os olhos. E foram muitos beijos, daqueles em que os lábios não desgrudam e a respiração é sentida no rosto. Afobado, desesperado, de desejo, de vontade, de paixão.

Um beijo. Algo que eu não costumo ver por que nem para que. Mas quando você chegou eu quis muito mais com você, provar o seu gosto, conhecer os seus piores defeitos e de tudo que você é capaz quando está com raiva. Por último, eu queria todas as outras coisas que você já sabe. Se não sabe, meu olhar tentou te dizer quando insistentemente penetrava no seu. E você, distraindo-se, enfrentava tornados, maremotos e um turbilhão de fracassos amorosos. E eu lá, sentada na sua frente como quem senta em um vagão de trem e espera alguém pela porta aberta. Como se esse vagão quebrasse, e eu só levantasse quando você estivesse comigo. Mas depois, ali da plataforma, vi pela janela o seu rostinho passando, amargurado, despercebido, sem sequer um sinal marcado, pedacinho de sentimento, sabe? Eu queria ter te deixado uma marca de batom. Eu queria que você não tivesse me deixado tantas marcas - do seu cheiro, do seu jeito, do seu meio sorriso, da sua cerveja predileta...

Não. Tudo o que pude fazer eu devo ter feito. Lutar por um amor de novo? Até onde isso tudo me levou? Hein? A nada. A beira daquela montanha mais alta para assistir o horizonte, de tão cansada não suportar a descida, e seduzir-me pela altura a querer derramar com meu corpo todos os anseios na cachoeira lá embaixo. Pulo junto. Eles vão comigo. Você, sem dúvidas, estaria lá.

Terminamos a noite ficando tristes e sós. No mesmo banco, eu ouvia você resmungando o passado frustrado amoroso. Nos devemos um brinde. Comigo não foi diferente. Acontece que você chegou. Chegou com a força da onda mais alta como aquelas do Havaí, e eu estava bem embaixo, caiu e quebrou sobre minha cabeça. Nado para a superfície. Perco o ar, me desespero. Você tem sempre mais força.

Por falar em força, quero terminar lembrando do seu abraço. Deixo por último para que fique na boca como o gosto do recheio do bolo (quando é deixado por último), e não se coloca mais nada para senti-lo por mais tempo. Verdade: eu não quero perder nada. Nem você, nem aquela gatinha branca dos olhos azuis. Mas eu acho que já perdi. Alguém sabe me dizer se realmente se perde só aquilo que se tem?

Seu abraço me fez correr por uma estrada de flores, com cheiro de mato, campos floridos, pássaros fazendo uma linda canção, e borboletinhas roxas, amarelas e brancas cercando o cenário. Fez com que eu deitasse nas nuvens e enchesse os pulmões de ar. Encher os pulmões de ar?! Durante aqueles segundos (ou será que foram horas?) perdi a respiração, e te apertei tão forte, querendo ainda que fosse muito mais, quase fundindo meu corpo ao seu, e esse medo não deixou. Antes tão forte, agora nobre, doce e amável, você acariciava meus cabelos e demos suspiros tão bem ensaiados em sintonia que senti os nossos corações mais perto. E o seu coração batendo contra o meu me deixou assim.

Assim, desse jeitinho encabulado, como a criança que esconde a lição de matemática porque não sabe se fez certo. Eu acho que eu gosto de você.