domingo, 2 de janeiro de 2011

Adeus a um grande amor

Havia ainda a perturbação sonora do choque do trilho do trem, e milhões de paisagens correndo desesperadas pela janela, também milhões de olhares me fitando, curiosos. Por que choro?
Fico a pensar, nesta manhã sombriamente chuvosa, que foi injusto. Digo injusto por não saber que aquele abraço seria o último, por não ter tido a chance de prolongar os segundos em que confortava a alma buscando seus olhos. Injusto sentarmos em um degrau de madeira para ouvir os pássaros, injusto você deixar que eu toque nos seus cabelos, me mostrando as cores que eu teria reparado se meu pensamento não estivesse mais flutuante que a canção dos passarinhos. Injusto, sujo, destino torto, ai de mim! Por que ainda choro?
E no silêncio que encontramos entre a estação lotada e mil vidas às pressas, ainda tive nossos rostos tão perto, grudados, por instantes que não findam. Deixei você soltar vagarosamente a minha mão, e quando ia, foi rasgando pedacinhos, foi deixando a pele em carne viva, foi partindo e me levando a alma para o longe. Nossos olhares se beijaram, silenciosos, e eu pensei que não dissessem nada. Você queria me dizer adeus.
No vagão do trem, digo que eu fecho os olhos para ouvir sua voz. Agora por qual razão, não sei, mas era verdade que você queria soltar a mão da minha. Só nunca nos meus olhos você disse adeus, e quando eu perguntei se podia ir embora da sua vida, você me deu um abraço e disse que nos veríamos. E deparo-me com suas escritas, na mais sutil e dolorosa despedida. Diz que é melhor para nós. Que eu não ligue mais, não fale mais. Você me acaba, enterra. Morri!
Concordo, e despeço-me. Mas ainda acho injusto que não tenha avisado que era a última vez, eu teria puxado a sua mão mais forte, beijado seu braço, não deixaria ir embora. Quem vai sou eu. Vou embora de mim. É um exílio, suporto-me. Você me deu um tiro na perna. Pareço ouvir, desfalecida, sons como a chuva que cai, como a batida do teclado, mas encontro-me reencarnando eternamente, pondo-me abaixo da terra de onde nossos pés pisaram nesse último abraço. Adeus, adeus, adeus, meu grande amor...Quem sabe eu esteja viva.