domingo, 7 de novembro de 2010

Nascentes, poentes e fábulas...

Águas, margens e lampejos, é tudo o que vejo quando você sorri. O infinito do céu é secundário, e parece nunca me tocar o corpo se cair uma violenta tempestade. Sinto os pés se afastarem do chão, vai perdendo a gravidade. Tem gosto de mel quando você sorri.
Muito mais - fábulas, rios, nascentes, poentes, fadas. Um degrade da tarde esquentando, quando anunciando o crepúsculo, vem suave a brisa que mexe os coqueiros. Beira o mar, só que é de água doce a forma como você sorri. E tem até plural, eu já conheço todas. Existe um jeito delicado de transgredir a seriedade, os lábios entreabertos, os dentes quase não se mostram, tímidos e guardando a beleza. Outra vez você não sabe o que dizer, o que fazer, e isso é tão imediato e seguido de um ato ou palavra, que altera seu semblante perfeitamente. Os olhos são diminuídos, parece que ficam pequenos, que não se vê para onde olham. As bochechas vão pegando a cor das pétalas da rosa, suspeito que contenham pólen. O sorriso, enfim, é largo, espontâneo, e você parece sempre ter a mesma expressão delicada. Tem um outro jeito também, mas esse é mais recente, em que você sorri e realça o lábio inferior mostrando todos os dentes. Tenho visto em fotos, e é menos espontâneo, mas só de ficar olhando para ele eu chego bem pertinho do horizonte. Eu amo quando você sorri.
Sabe a sensação das pessoas que enfrentam a montanha-russa, a roda-gigante? Eu sinto algo parecido quando você sorri, perco o medo da altura. Vou ficando quase na ponta dos pés, até perceber que eles estão mesmo sendo tirados do chão. Passo para outros planetas, dá aquele friozinho na barriga, gostoso de sentir - porque se não fosse, ninguém iria nesses brinquedos. É gostoso quando você sorri, e até distante eu fico com o gosto de bala de canela no canto da boca, mordendo devagar. Me dá vontade de sorrir também.
O mais interessante é que são tantas as vezes em que você sorri para mim. Algumas de perto, carne e osso, outras de qualquer lugar, com telas de pintura e tintas. Se passasse um filme quando você sorrisse eu pararia a cena com o controle remoto, para ficar como fico namorando o seu retrato (principalmente a foto em que você sorri). E reclamo tanto da saudade, mas você tem vindo sorrir para mim em alguns sonhos, o que nem sempre é bom, porque acordo ao meio dia. Eu me atraso no trabalho porque você sorri. Teve um dia também que você sorriu na janela do carro, mas era tão nítido o seu reflexo, você não estava do lado de fora. Nas pessoas que passam apressadas na rua, por delírio ou saudade fico formando a sua imagem, brincando de achá-las parecidas com você. Nessa hora, alguém sorri - você está sorrindo. Tem mais um momento, que é de madrugada, no meu travesseiro. Eu fecho os olhos e você sorri, me desejando uma boa noite, e isso é tão profundo e ingênuo, ao mesmo tempo delicado, porque se diz "boa noite" para quem dorme, e seu sorriso me deixa acordada. E é um problema meu, mas eu trocaria todas as minhas noites para em uma delas dormir olhando o seu sorriso. Talvez, depois disso, eu não precisasse acordar. Mas talvez, com isso, eu nem dormisse direito.
É tão abençoado o seu sorriso, que não sei mais se mereço quando você sorri. Não sei se sabe, mas me faz tão bem. Antigamente eu sentava em um banco de igreja no horário da tarde, com os olhos fechados e bem encolhida, ficava quietinha em oração. Isso era vital para mim. Hoje eu sento na cadeira e vejo a sua foto, ou serve um banco de praça, calçada de rua. Da mesma forma, com os olhos fechados e as mãos unidas, você sorri. E se eu pensar que em algum lugar você está sorrindo, é porque está feliz, e isso me leva a sorrir também.
Eu quis te mostrar quantas palavras eu escrevo por causa do seu sorriso, e espero que, com isso, você sorria mais para mim. Se gostou do que eu escrevi, sorria em gratidão. Se te deixou com aquele jeitinho desmontado, morrendo de vergonha, então ria, mas deixe esse sorriso no rosto. Algumas vezes ele é inocente, inofensivo, vem aberto e faz um chamado para minha alma, que estoura como uma vidraça frágil e cai em alguns cacos pelo chão. Outras vezes é mais cruel, você vai sorrindo e parece que me suga para dentro de você, mas bem no meio dos seus dentes, sou mordida e contagiada. É, assim mesmo, riacho verde como se recheado de pérolas, é mar e lua, é céu azul, aberto e campo florido. É tudo quando você sorri.
Se todas as vezes que eu dissesse algo você sorrisse, eu não pararia nunca de falar. Mas o silêncio é necessário para eu pescar os pensamentos que saem da minha cabeça e param na fila de embarque do aeroporto, indo embora do continente. Escapam tão longe que até corro atrás, e tropeço, sabe onde? Naqueles cacos de vidro no chão. E se não ficou tão claro, esses pensamentos são fumaças que pairam sobre nossas cabeças, e até tomam forma se eu tomo coragem de dizer, mas se isso não acontece, quem sabe como nos quadrinhos eles não surjam escritos dentro de um balãozinho branco. Se isso acontecer, lentamente você verá um deles aparecer em cima de mim, onde estará escrito algo assim:
"Eu amo quando você sorri."