sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Andando na rua, ainda penso em você. Saio da casa, do bairro, da cidade, mas você vem comigo, bagagem de mão. E sobrevivo desses anseios procurando seus traços em quase todas as pessoas, quando os cabelos lisos e muito claros para serem castanhos, mas muito escuros para serem loiros, dançam sobre as costas de alguém. Então eu brinco de adivinhar a sua cor, "Esse não. Esse quase, mas é só um pouquinho mais escuro." E quando chego finalmente em um cabelo com o tom do seu, passo para a próxima etapa: a pele. Busco a pele mais clara, mas não de todas as pessoas, só dessas poucas pessoas que selecionei por terem os cabelos parecidos com os seus. Está me consumindo como delírio, obsessão - é o que todos dizem - mas eu gosto, e acho divertido. É uma forma de você estar presente, e quem sabe eu não forme, em quebra-cabeça, finalmente a imagem sua. Até trouxe aquela pulseirinha que você não tira do braço (aqui na memória) para dar o toque final, e as pessoas para quem olho ficam confusas, pois meu olhar se fixa e vai, com o semblante franzido e coberto de ternura, penetrando lentamente nelas. E chega a ser mais engraçado, como cena de filme, quando uma delas resolve sair detrás de uma placa, de uma esquina, vindo de repente, e eu vou passando os olhos inclusive pela pessoa, em seguida, como quem toma um susto, viro rápido a cabeça para o lado em que ela está, no sentido contrário ao que estava girando. Elas não entendem, se perdem, e eu também. Elas porque eu não sou alguém conhecida, eu porque elas não são quem eu queria que fosse: você.