sábado, 5 de junho de 2010

A última carta

Você não me ama, está tudo certo. Resta agora me dar aquele abraço fraterno e selar a paz da nossa amizade. Não nego que esse momento rasga sete pedaços do meu coração, mas vamos lá, está tudo bem.

De repente, quando o jogo acaba, a nossa despedida vira um novo começo. A última carta que restou da mesa foi despejada por completa no meu corpo dilacerado pelo seu toque, na forma como seu braço cercou a minha cintura e senti tão apertado seu peito contra o meu. Era para ser todo tipo de beijo - foi essa a forma como você me tocou no rosto, na testa, no pescoço -mas em tom invasivo lembro que seu lábio se atirou para a cela dentro dos meus e tudo o que estava ao redor parou para ouvir. Todo oxigênio das árvores era nada perto da sua respiração quente contra minha face, me roubando cinco sentidos e um outro que eu ainda desconheço. Estava tão entregue, ali de pernas quebradas inclinando-me para equiparar a sua altura, o que talvez nunca conseguirei. E o livro fechado, esbanjando poeira, como a terra esvoaçando por trás da moto quando você vai embora e meu coração promete não te ver voltar. Mas eu sempre corro, no farol vermelho e na contramão para ter seus olhos de frente para os meus e dizer, para você surda e cega, que eu te amo. E de braços dados no parque eu queria só ser a sua amiga e jogar todo meu sofrimento no lixo, e o fiz, só que infelizmente ele foi reciclado.

Maldita mania de ver a lua. Penso em roubá-la do céu, embrulhar em um papel vermelho e largar na porta da sua casa de presente. Tudo isso para que você sinta saudade daquilo que via e do que se lembrava, algo entre um grande amor secreto, proibido, descarado e um conto mal escrito. Algo que nas entrelinhas do meu romance eu não tenho a mínima pretensão de esquecer...

É, coração, cale a boca. Estou dizendo que o jogo acabou. Era da mesa a minha última carta, e a poeira que restou do baralho não é a mesma da que fez você partir...