sexta-feira, 16 de abril de 2010

Primeiro plano das segundas intenções

Sumam daqui! (um gesto desgostoso)
Não entenderam? Sumam! Vão já para longe de mim, e enterrem seus galanteios! Chutei a colmeia. Farta! Adormecida pelos braços de alguém. Anestesiada pelo seu beijo. É quando vem o frescor da maresia pelo céu entardecido, mas o que é essa coisa que chamam de amor? Podem voltar, venham depressa, venham ver onde meus olhos pousam em algum horizonte invisível, assim poderiam acreditar. A vida inteira eu respirei mais de mil razões e todas esmaecem dentro dos seus olhos, amor. Não sei dizer onde estavam minhas mãos no nosso primeiro beijo, é que pareço ter fome (como chama aquele frio na barriga seguido pela quentura de degustar um café de imediato?). Alguém pode me chamar um médico? Meu coração dispara. O que há? - pergunto-me ao espelho com a tácita expressão de insônia - o que há em ti que desmoronou em meu seio e parece afogar a razão, a ponto que me sinto enferma de pensar que te perdi? Nem aqui estou para falar de ti, e como tagarelam meus pensamentos, já o fiz. Entenderam que é para sumir?
Vejo tantos olhos coloridos, cabelos mais curtos, corpos menores ou maiores, braços e abraços confortáveis. E daí? São os teus? Então, como eu disse, sumam. Talvez as páginas da minha vida - desse livreto absurdo, repugnante, romântico enlouquecido que a vida absorve - achem seus nomes nos próximos capítulos. Acontece que estou orgulhosa, estou viva e posso sentir. Parece que essa coisa que falam, essa que capricha as telas de cinema (e imitam os casais comprando pipoca até a roda-gigante), essa que despeja dos olhos das mocinhas as lágrimas, essa que dá aos rapazes a vaidade, a mesma da criança que segura a mão da outra em seu primeiro amor, me atropelou na estrada. E talvez a nuvem mais alta onde alcançavam meus sonhos fosse só uma armadilha. És um anjo meu, e que ousadia, meu amor, cair direto em meus braços!