domingo, 2 de agosto de 2009

VI
"Agora esse maldito diário de declarações afobadas de tristeza deve chegar até onde estás. Quero sair do monólogo apaixonado e te pedir respostas. Estás distante. Mal posso saber com quem andas, por onde andas e se estás feliz. Meu coração sente que sim, embora na companhia de outro alguém, mas o que realmente me mantém viva é a consciência da tua felicidade.
Já disse que vivo por ti? E que aspiro a vida tua em cada manhã, cada pôr-do-sol e cada noite de insônia?
Sei que estás longe de mim por eu não fazer mais parte da vida tua como fiz um dia. Sei também que outro motivo dessa distância é para que eu te esqueça. Sinto em dizer: teu plano falhou. Estás tão longe e eu te sinto a cada instante aquecendo o meu peito, sufocando de saudade e derramando lágrimas por não poder mais te ver, nem que do outro lado da rua, ou com um beijo na face de cumprimento.
E se mesmo a distância não fizer com que eu te esqueça? Vais olhar para o chão e suplicar algo, ou dizer que não há solução. Nem mesmo a ausência tua apagou meu sentimento, então o que podes dizer? Sou predestinada a isso, eu senti no primeiro momento em que tive o teu corpo recebido no abraço e não há nada que me faça negar.
Raiva de amar? Tento odiar o cheiro dos teus cabelos e a forma da tua boca com cada pessoa que passa que faça lembrar-te. Odeio os teus amigos que me falam de ti e me obrigam a disfarçar a dor que me causara. Mas posso odiar tudo o que vem de ti, menos a tua mão segurando a minha ou o teu olhar que me tirava de um instante de loucura. Se quiseres, posso até fingir isso em um teatro da maior estupidez que cometi um dia, mas eu morreria em seguida, como quase fiz se não tivesse te pedido desculpas.
A vida tem corrido como um trem e embora eu esteja ali na frente, tuas memórias percorrem o último vagão ou as janelas, e eu te revivo a cada dia pela minha saudade. A culpa foi minha em ter deixado que isso crescesse, mas de tanto acreditarmos no que não se deve acreditar, vá lá saber se não era o meu destino. E o teu? Pouco sabes, e hás de se encontrar um dia. Só queria que pedisses outra vez que eu me afastasse, e eu te responderia dando outra prova sobre a qual o meu amor sobrevive. Estou tentando procurar outros lábios, outros braços bem mais fortes e maiores que os teus, e um amor que me mate por dentro. Acontece que eu já morro a cada minuto que conclui o relógio na parede da sala pela imagem tua em minha mente.
Porque eu te amo."
Manuela de Castro