quarta-feira, 1 de julho de 2009

Para Quem Não Vive Um Grande Amor
I
“Era em toda parte, dos quatro cantos do quarto à infinidade do universo revestindo o planeta. Era um pouco da sua memória dentro de páginas de livros amareladas sobre a cama, um brinquedo sobre o armário, uma poesia. O gosto que te põe à boca do sal de uma comida ao mais amargo sabor da bebida, e tão doce como o vinho. Como pode um ser habituar-se a viver onipresente, aspirando de dentro de ti para fora em cada vez que abres teus olhos? E se me mandassem optar por isso, isso que vive aqui dentro e arde com cada suspiro e cada batida no peito, eu sugaria para dentro de mim como o mar recuando as ondas na maré cheia...naufraguei agora, nesse instante. Posso sentir algumas marcas espalhadas pelo meu corpo, hão de cicatrizar outrora. Primeiro é preciso que arda, que rasgue a carne viva e jorre pelo meu sangue até que eu me sinta morta. Eu sou só carcaça, e um vão de sentimentos por dentro que se traduzem em um nome, apenas. Nome este que não vou dizer, que vou negar, que há de pertencer à minha cova – e nesse dia, escrevam o que vou dizer agora e deixem repousar sobre o lado esquerdo do meu peito: “Há muito o que se descobrir além da vida, por trás do corpo, do destino. Há feridas intensas que provêm da alma, e são tão fortes que puderam me levar à morte antes mesmo que eu morresse. Há mais do que se fala de amor, há muita vida escondida para dentro de um corpo e uma dimensão entre o céu e o inferno que somente um coração é capaz de te guiar, e então, deixa! Morra vivo a cada instante – eis a essência da alma apaixonada, predestinada a viver a vida de outrem no presente da eternidade.”

Manuela de Castro