sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Homem Desgraçado

Sou um peito morto, véu cicatrizado
um vadio tunante frutuoso...
Homem desgraço, gélido de fogo...
louco e pérfido, mas amoroso!

Se sentes a brasa, sou infernal
indigno de voltar os olhos ao céu
O diabo diz conhecer o mal...
Não sabes de mim? Prazer, Miguel!

Quero a morte como quis aquela
Gargalho até da minha sepultura
Nem meu corpo debaixo da terra
teria sangrento mais ternura!

O gosto do meu beijo é um escarro...
e mato um anjo por cada noite...
Rastejo e curvo ao ser amado
como um tolo tão afoite

Homem desgraço, caiu deitado...
todo infame, poeta vil!
o melhor amante, depravado...
cavalheiro, todavia hostil!

Penso fétido – o amor que mata!
Vagabundo tórpido, um santo desgosto...
que não vale a merda de um vira-lata...
a lágrima fria lambendo o rosto!

Mancebo rústico, enfim robusto...
no auge divino, que homem! – exclama
a mulher que tem um susto...
agora na rua, depois na cama!

Intenso, rígido, só de agrado
deleite, másculo, quase afã!...
Tão bela postura, brando sagrado...
não mais belo que amanhã!

Chama-me assim; não se queixa
orgulha-te da escória de ser mulher...
ama comigo, alegre e deixa...
fazer de ti o que eu quiser!

Miguel Alcântara