sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A Era Colonial Moderna


Loiros, drinks e lanches. É alemão aqui, espanhola ali, americano até na hora de comer. Se tiver um brasileiro por aí, boa coisa não é – ou é, longe de qualquer país. Estou dizendo sobre nosso brando verde e amarelo, nossa honra de patrimônios naturais, e qual é mesmo nosso lema? Eu não desisto nunca! De fato, eu não desisto, insisto. Entristeci-me ao ver que o Aurélio foi comido, ou melhor, completamente engolido pelo Tio Sam. E pior: na hora da tecnologia, “chama o japonês ali”, mas torcer o biquinho para falar francês e botar o “i” pra correr é fácil, não é? Acorda, Brasil! No Japão é tudo pequeno, com as palavras seria igual. Mas nããão, americano é mais bonito. Vê o Bush, por exemplo. O outro ali no Afeganistão explode sozinho, e o burro é o português. E cadê o Bin Laden? Ninguém sabe, mas quem venceu o Big Brother Brasil até quem não quer sabe. “Viva o patriotismo!” – dizia Hitler, pena que morreu. No auge da minha indagação, saí para a Avenida Paulista de verde e amarelo. Curiosamente, atraí mais olhares que um popstar, e encontrei uma amiga, que me disse:
- O que é isso?
- Patriotismo. – devolvi-lhe com um leve sorriso, que não foi correspondido.
- Para mim tem outro nome.
- Nacionalismo? – indaguei.
- Não, brega.
Ainda assim, não desisti. Foi em uma viagem à Espanha que tornei-me missionária de resgate da língua portuguesa. Cidades maravilhosas, delícias de culinária e músicas tão românticas que só poderiam ser sentidas à beira daquele mar, coberto por um vasto manto estrelado que brilhava no céu daquela noite (só não mais do que eu naquele dia que atravessei a Paulista). No primeiro hotel que busquei, em Málaga, a recepcionista, aquelas mesmas de roupas escuras e um pote de gel diário para erguer um topete que dispensaria qualquer chapéu avistou-me e disse:
- Pues sí, ¿puedo ayudarte?
- Poder pode, mas de preferência em português. – respondi-lhe com profundo ar de repugnância. Então, como se aquele sorriso fosse o normal estampado por toda a eternidade naquele rosto, tornou a argumentar:
- Do you speak english?
Maldita globalização - pensei, enquanto já ajeitava as malas e aproveitei para pegar um daqueles biscoitos maravilhosos típicos de salas de recepção. Quem nunca os guardou na bolsa para levar para casa? Ah, você faz isto. Eu sabia! Tinha que ser brasileiro. Mas o pior está por vir.
Obviamente, não tenho a intenção de ressuscitar nossas origens lingüísticas, pois saberia que cada palavra resultaria de um outro idioma. Relatar um país extremamente nacionalista, na era globalizada, é aprofundar-se na drástica utopia de um egocentrismo exacerbado que terminará por fazer-nos de vítimas alienadas. Resta-nos somente a consciência, e o estímulo de preservar a identidade nacional, jamais deixando que sejamos povos submissos e, como me atrevo a dizer, colonizados da era moderna. É preciso que haja orgulho e inspiração à pátria, e que jamais o receio disto pela reprovação alheia nos impeça de valorizar o que temos, e ao mesmo tempo, aquilo que somos. Enfim, o chinês inventa, o italiano dança, o japonês estuda, o americano mata. E não há com o que se preocupar. O brasileiro não sabe de nada.